Capítulo II

 

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

 

Sérgio Augusto Freire de Souza

 

 

            Minha mãe é a sobrinha em cuja casa titia morou por mais de quinze anos. Eu, que conheço os bastidores da história, posso dizer que ela saiu do convento mais por um convite-brincadeira do meu pai para que viesse morar conosco do que pela carta papal que, segundo o tradutor, supostamente a autorizava. Na verdade, titia uniu o útil ao agradável: saiu do convento, pois já estava de vulva cheia das injustiças e dos mistérios que ali habitavam,  e foi morar lá em casa, já que havia sido de fato convidada. Saiu d’ “O Nome da Rosa” para “Deu a Louca do Mundo”, se podemos utilizar metáforas cinematográficas. Era realmente um mundo novo.

            Eu tinha dez anos na época, mas lembro como se fosse hoje. Meu pai (mais emburrado do que porteiro de cinema e mais arrependido pelo convite do que moça que deu e levou fora) descarregando uma mala preta, fechada com dois cadeados Papaiz. O Paulo, meu irmão mais velho, juntamente com o Neca, filho do seu Basílio, o vizinho feirante, ajudaram a carregar o baú de ferro branco para dentro de casa. Isso mesmo: um baú branco. Com o tempo ele amarelou devido às infindas camadas de Brasso por sobre sua superfície. Tal qual a mala, o baú também veio fechado com cadeados. Só que esses ligavam grossas correntes de redes, surrupiadas sem remorso do dormitório da Madre Consolata. Titia acompanhou com um olhar vigilante o trajeto do baú, desde a brasília verde do meu pai, comprada do tio Alencar por três salários de professor estadual (bons tempos aqueles...), até o seu quartinho provisório (viria a construir o seu definitivo no fim da garagem algum tempo depois). O Neca, curioso como qualquer feirante, ainda perguntou inocentemente o que havia no baú. Diante do silêncio constrangedor e olhares surpresos com a pergunta ousada, Neca recolheu-se à sua insignificância e à sua função de carregador ad hoc.

            O baú branco ficava embaixo da cama da titia. Seu quartinho virou para nós, meninos da casa, a masmorra intransponível em cuja profundeza se escondia o mais terrível dragão cospe-fogo. Ninguém ousava chegar perto, muito menos entrar seu consentimento. Só o Mauro. O Mauro tinha sete anos e fazia tudo que a gente mandava. E ele, logo, logo, se tornou o xodó dela, o que foi bem providencial para nossos planos maquiavélicos.

            Nossa idéia era usar a proximidade do Mauro para roubar o molho de chaves do baú. Sabíamos que era um plano sórdido e até hoje rezamos todas as noites para São Domingos Sávio, o santo aluno de Dom Bosco, para que ajude a limpar nossa barra junto ao Todo (quem sabe uma intimidade com o Todo Poderoso possa ajudar...) no dia do juízo final. Mas nossa verve de moleque foi mais forte do que o catecismo do sábado na igreja do Padre Adonias e fomos em frente com o plano.

            Depois de alguns estudos táticos, o Mauro pegou no quarto da titia o chaveiro com as chaves. O chaveiro era aquele de mãozinha maleável (presente do meu pai, sempre bondoso e, paradoxalmente, cheio de intenções sacanas). Depois de pego, o André Conde  levou o chavaral correndo de bicicleta até a Rua do Comércio, no Parque Dez, onde fizemos as cópias das chaves no Jaime Chaveiro. O Waldemar Lins, da rua dois, que tinha dinheiro porque seu pai e a família toda trabalhava num tribunal desses aí, pagou a conta na promessa de ser o primeiro de fora de casa a saber o que tinha no baú. Cópias feitas, o Mauro devolveu a mãozinha, recolocando-a na segunda gaveta do criado-mudo, debaixo do livrinho amarelo “Orações de Poder”, mas não sem antes colocar os dedos em posição de cotoco. Tudo isso só foi possível porque a titia tinha saído. Fora ao IPASEA para sua sessão de fisioterapia. Estava surgindo um mondrongo estranho nas suas costas, um tipo estranho de cifose.

            A abertura do baú ficou para dali a dois dias, quando a titia teria uma consulta para ver seu diabetes, já com muitas cruzinhas. O Waldemar chiou, pois como um bom capitalista filho da puta, jogou na nossa cara que tinha pago e que queria a mercadoria. Depois de muito sabacu, convencemos o Dema a esperar.

            O dia chegou. Minha mãe tinha ido trabalhar lá no grupo escolar Leonilla Marinho. Ficamos só nós, os moleques de casa e, claro, o André Conde e o Dema, o mecenas. Eles haviam participado da conspiração desde o início. Quem teria o privilégio de abrir o baú? Depois de pouquíssima discussão, decidimos que de todos os moleques era meu pai quem deveria abrir. Mandou o Mauro vigiar a porta (o Mauro sempre fazia o que a gente mandava), puxou o baú para fora da toca e clique 1, clique 2, clique 3, clique 4, clique...clique...a chave 5 não abria. As chaves do Jaime Chaveiro sempre davam problemas! O André Conde se prontificou a ir lá mandar limar a chave, o Waldemar concordou, pois já estava pago, mas meu pai disse que precisaria da original e a original estava no IPASEA, devidamente agasalhada num cordão entre os peitos da titia, já murchinhos e sem viço, porém virgens. Eram raríssimas as vezes em que ela saía e não levava a chavaria. O Waldemar ameaçou reclamar de novo, mas parou no primeiro cascudo do Conde. Desfez-se a cena, empurrou-se o baú de volta, calou-se o resmungo do Dema e o plano foi abortado.

O que teria no baú branco? Fomos todos cuidar da vida, com essa pergunta ecoando como praga de mãe. De noite, quando minha mãe chegou, o Mauro veio correndo nos alertar de sua chegada. Havíamos esquecido de dispensar o Mauro...

            Titia foi morar, modéstia à parte, no lugar certo. Lá em casa, ela entrou em contato com o mundo real, mundo que a monossemia do discurso religioso a impedia de ver. Foi lá que adquiriu vocábulos importantes como “cabaço” e “merda”, juntando-os aos démodés “encarnado”, “quizília” e “mimoso”, sempre presentes em seus dizeres. Foi lá também que recebeu, na mesma proporção da implicância, amor e carinho. Gostávamos muito da titia. E ela de nós. Apesar de seus segredos de Albieri e de suas incontáveis manias.

            Tia Eulália gostava de gerenciar as garrafas d’água. “Você, que está gelada, venha pra frente. E você, que está quente, dê lugar à vermelha, que está gelada”. Foi assim, dialogando muito mais com as garrafas plásticas da Lobrás do que com as irmãs do convento do qual saíra, que ela viveu o seu restinho de vida. Tinha também a mania de brigar com as empregadas. Saiu nos tapas com a menina Elita, que pediu imediatamente as contas e deixou minha mãe na mão. Problemas de muito cacique para pouco índio. A Elita queria gerenciar as águas também. Aí não deu.

            Anos depois da primeira tentativa de acesso à caixa-preta do baú branco, tentamos de novo. Mas dessa vez a sorte estava do nosso lado. Não se sabe a razão, mas titia havia reduzido o número de chaves de cinco para uma. Talvez o peso de cinco chaves penduradas no pescoço estivesse forçando sua coluna. Mandamos o Mauro dar o jeito dele e pegar a penca de chaves. E o Mauro, cordato, pegou (ele sempre fazia tudo que a gente mandava). Titia foi passar o fim de semana na casa de sua irmã, Adelaide, professora aposentada e ex-chefe dos malárias, casada com um alto funcionário de uma autarquia federal, por onde circulava muita gente graúda e muito dinheiro idem, dólares inclusive, em se tratando de Zona Franca em seu apogeu. E lá fomos nós para seu quartinho, cuja chave meu pai mandara copiar (não no Jaime Chaveiro, claro).

            Meu pai, eu, o Paulo entramos no quarto. Um cheiro forte de Sanavita e naftalina mesclando-se no ar servia de campo de força, quase que expulsando aqueles que não tinham seu organismo adaptado ao odor. O Mauro ficou no lado de fora, na porta, para avisar sobre qualquer movimento suspeito, pois ele era bom nisso e sempre fazia o que lhe ordenavam. Puxamos o baú. Abrimos. Após o ranger da tampa, vimos o que tinha dentro. E o que tinha dentro não preencheu a expectativa que tínhamos, que era nenhuma, na verdade.

            Havia algumas pastas plásticas de cores diferentes. Em cada uma, na frente, escrita com aquela caligrafia impecável e indefectível, típica dos alfabetizados na década de 20, um nome. A letra desenhada, um pouco italicizada, diríamos hoje, compunha um rótulo para cada uma: SAÚDE, RELIGIÃO, FAMÍLIA, TRABALHO, INVESTIMENTOS, DIVERSOS. Junto às pastas, uma caneta Bic Cristal com um papelzinho com o nome “Consolata” enrolado na carga, identificando a dona (ou ex), uma foto da Alfândega alagada pela grande enchente de 1953. Na foto, aparecia sobre uma catraia ela e um homem, robusto, meio rústico. Estavam felizes. No verso dizia, com a mesma caligrafia, porém mais forte, sugerindo um traço masculino: “Lembranças dos dias molhados. N.C. Mao, 06/09/’54”. Quem seria o N.C.? No canto direito, enrolado por uma flanela amarela, havia um objeto estranho. Era azul claro, com o diâmetro de uma lata de Leite Moça, mas mais longo e com a tampa pregada com durex. Pesava muito e trazia escrita a frase gravada: Communis consensu, hic et nunc femina est: tuo ius naturale, pulcher agape, tuo ius naturale. N.C. . Como ainda não havia estudado latim com o Valente, a frase pra mim era grego.

            Meu pai folheava as pastas em silêncio. Estava com a FAMÍLIA aberta, com uma cara de surpresa, segurando boquiaberto uma cartolina azul quando o Mauro irrompeu no quarto nos avisando, como lhe havia sido mandado: “A titia chegou!!!”.  Meu pai tomou um baita susto. Acho até que na hora de colocar as coisas de volta às pastas embaralhou-se e colocou a cartolina azul em outra pasta por engano. Eu joguei o tubo azul da bitola larga dentro da caixa, esquecendo de enrolá-lo na flanela, que foi simplesmente jogada sobre tudo. Corremos todos e disfarçamos jogar futebol de mesa, pois já havíamos preparado todo o esquema: dois a um pra mim contra o Paulo, com meu pai de juiz e o Mauro de gandula.

            Titia chegou e foi para o seu quarto. Com o fim da partida, o Paulo me chamou de lado e me mostrou algo. Mal pude acreditar: eram dólares. Um maço de notas de 100 dólares, enrolados e presos com uma liga amarela. “Onde estava isso?”, perguntei. “No baú”, disse ele, já pensando na bicicleta Tigrão que iria comprar, se soubéssemos, claro, como trocar dólares naquela época. “Me dá isso aqui!”. Tomei dele. Apesar de mais velho do que eu, eu sempre fui mais ajuizado do que ele. Ele sempre se deu bem melhor com a mulherada do que eu, é verdade, mas eu sempre tive mais juízo. Acho que é até por isso ele sempre se dava melhor. “Vamos devolver!”, disse eu esporrenado e já pensando no Genius, no Falcon, no Pequeno Químico e na Barsa novos.

            “Cadê o pequenino da tiaaaaa?”. Era titia chamando pelo Mauro, o Brutus. “Tenho um presentinho pra vocêêê”. Fiquei com medo que o Mauro entregasse a gente. O Mauro, além de muito obediente, sempre foi venal. Mas não dessa vez. Ele foi fiel à nossa conspiração. Fez como que o povão esperto faz: pega o rancho do Amazonino e não vota nele. Ele pegou o presente, um baralho COPAG, deu um beijo de Judas na bochecha enrugada da titia, relando em seu sinalzinho de cabelo perto do queixo, e veio brincar conosco. O Mauro cresceu simbolicamente naquele dia, pois aprendemos a respeitá-lo por sua lealdade. Fisicamente, no entanto, é o mesmo baixinho de sempre até hoje.

            Dólares... O que titia fazia com dólares? E aquela pasta INVESTIMENTOS? Fiquei intrigado. E aquele tubo pesado, lacrado com durex? E aquela foto? E o N.C? Quantas perguntas... Estava pensando nas possibilidades quando fui interrompido em meus pensamentos, quase estuprado pelas ondas sonoras que singraram o ar da rua três.

            “MERRRRRRRRRRRRRRRRRDA!!!” O grito da titia, com o vocábulo recém-aprendido, chamou a atenção de todos num raio de 500 metros. Enquanto muitos corriam para ver o que havia acontecido, nós, com culpa no cartório, corríamos em direção contrária, para o outro lado da rua, mais precisamente para a casa da Dona Cleide, a fofoqueira, para nos esconder. Ainda cruzamos com a Dona Cleide, com cara de tarada por notícia fresca, cruzando a rua em direção ao quartinho da titia.

            Quando abriram a porta, lá estava a cena, assustadora, inacreditável, insólita. Titia olhava quieta. Todos olhavam quietos.