Capítulo III
A CASA DOS ESPÍRITOS
N.C. era um néscio cunhado de Maria Eulália por quem sentia uma forte atração sexual platônica. Não tão néscio nesses assuntos e nem tão platônica a atração. O porão da Rua Frei José dos Inocentes, 275 que o diga.
Tia Eulália, ainda no Convento, costumava passar suas “permissões” na casa do irmão mais velho, onde aos domingos reuniam-se outros irmãos e cunhados. O casal Ermelinda e N.C. eram os mais assíduos visitantes, principalmente (e “coïncidentemente”) nos períodos de “permissão” da noviça rebelde.
A casa do irmão primogênito era imensa, com dezenas de cômodos: quartos, salas, corredores, terraços... duas portas de vai-e-vem, colunas de mármore, lustres, bufês e cristaleiras, e até um piano alemão, um verdadeiro cenário de ficção! Tudo parecia possível e permitido naquele lugar quase imaginário. É como se tudo o que se fizesse ali ficasse por conta do faz-de-conta. Qualquer culpa seria redimível já que nada parecia real.
Da grande sala de jantar descia uma escada que levava ao misterioso porão onde ninguém ousava adentrar, a menos que houvesse uma forte motivação para isso. NC e Maria Eulália ousaram. Era um lugar mal assombrado onde diz-se que um homem se havia enforcado e que até então se via marca de sangue na parede, embora não parecesse haver qualquer relação do sangue com o estrangulamento.
Os sobrinhos Galerdo e Deraudo adoravam quando tio Néscio vinha lhes visitar, pois ele topava descer a sinistra escada e logo tia Eulália o seguia, enquanto tia Ermelinda tagarelava com a cunhada na cozinha, há quase um quilômetro de distância dali. Preveniam sempre as crianças para que não descessem antes que lhes dessem o sinal verde e que avisassem se seu pai aparecesse. Os dois ficavam ansiosos, a postos, roendo os cotocos de unhas com risos de nervosismo, na inocência dos seus sete e seis anos, respectivamente.
Um dia, Érython, o irmão mais velho dos dois ingênuos capetinhas, chegou de surpresa de uma viagem ao Rio de Janeiro onde foi acompanhando sua irmã que tinha ido representar o Amazonas como rainha dos estudantes. Na euforia da chegada dos irmãos, os dois se distraíram e abandonaram seus postos. Érython, que apesar de seus vinte e poucos anos, fumava escondido do pai, chegou muito macho do Rio, se encheu de coragem e resolveu ir fumar um cigarrinho no porão, antes mesmo de desfazer as malas e tomar a bênção da mãe. Ao descer, hesitante, ouviu uns gemidos vindos lá de baixo. Ficou arrrrepiado da cabeça aos pés: “será o enforcado?” Subiu de volta e logo pensou em ligar pro seu primo Abab, que tinha esse apelido por que era a cara do Abab, filho de um libanês que morava na Bernardo Ramos, pertinho da Prefeitura, e que por sua vez era assim chamado por ser tão analfabeto que quando lhe pediam pra falar o abecedário ele gaguejava ab...ab... e nunca chegava no c. Pois é, “vou ligar pro Abab, ele é corajoso, vai ter que descer comigo pra ver que diabos está acontecendo lá em baixo”, pensou Érython. Ao pegar o telefone preto que ficava na parede de um pequeno corredor que dava pra sala de jantar, lembrou que naquele tempo o Abab não tinha telefone. “Só tenho uma alternativa: ir lá na casa dele”. Saiu à toda, subiu a Governador Vitório, pegou a Luiz Antony, teve que tomar um café com sua tia Sinhá que estava sentada na cadeira na calçada quando ele passou, e seguiu até a Aparecida, onde teve que tomar outro café com bolacha Maria.
O sol já estava se pondo quando chegaram os dois rapazes esbaforidos. Encontraram os meninos cantando: “Maria Eulália, pega na minha genitália, Maria Eulália pega na minha genitália”... O quê?! Onde vocês aprenderam isso, meninos? Tio Néscio corria atrás deles, mas não conseguia alcançar os danados que se escondiam atrás das colunas, entravam por uma porta e saiam por outra, despistando o tio furioso. “O tio tava falando isso lá em baixo pra espantar a alma do enforcado quando a gente desceu pra chamar ele pra merendar com tia Eulália. A gente repetiu a musiquinha pro morto não pegar a gente também e ele ficou danado, não sei por que. E a gente não quer parar de cantar agora pra alma não voltar de novo”. Abab e Érython se entreolharam com ar de cumplicidade e de homens pra homem juraram por Deus pro tio tarado que levariam aquele segredo para o túmulo.
Tia Eulália, distraída no chuveiro, cantarolava a musiquinha, sem a letra: “tara-ra-ra-ra lara-ra-lara-la-rarara”...