Capítulo IV

 

O JUÍZO QUE SE PERDEU

Paulinho Kokay

 

Tia Eulália, em uma de suas “permissões” saíra para perambular pelos bazares do centro de Manaus. Perambular sim, pois, eram raros os momentos em que abria mão, literalmente, de seus preciosos trocados desviados da Madre Consolata dos Anjos. Era um sábado de manhã. Chegando ao final da Avenida Eduardo Ribeiro, resolveu sentar e pensar na vida na praça da Matriz.

Ela era dona de um belo par de olhos azuis, os quais chamaram a atenção de um jovem bem vestido que estava sentado a sua frente. Ele se aproximou dizendo com uma voz rouca e sensual: — Eu que tive a felicidade de ver o mar e digo ter sido uma das mais belas visões de minha vida. Agora, sei que estava enganado. Nada é mais azul, mais belo, mais vigoroso que o par de olhos azuis que a senhorita despeja no universo.

Aquelas palavras enrubesceram a face de Tia Eulália, tão devota, tão dedicada. Ao ver de onde elas partiam, ficou extasiada. Era um belo jovem homem, robusto, meio rústico. Preocupada com a possibilidade de ameaça a sua tão sonhada “carreira clerical”, sorriu para o rapaz e logo saiu.

A cena se repetiu pelo menos três vezes em semanas consecutivas. Tia Eulália já não escondia o paradoxo que lhe tomava conta: esposa de Cristo ou  amante do jovem rapaz da praça da Matriz.

Um belo dia, resolveu aceitar o convite do jovem para passear de Catraia. Conversavam sobre tudo: saúde, religião, família, trabalho, investimentos e diversos outros assuntos. No meio do passeio, uma chuva torrencial desabou sobre Manaus. Tia Eulália, ensopada, recebeu a proteção do paletó do jovem que, mesmo de nada adiantar, parecia-lhe a proteção da própria Pirâmide de Tse.

Antes de descerem da catraia, posaram para uma foto “lambe-lambe” que, depois de pronta, recebeu a dedicatória: “lembrança dos dias molhados. Assinado: N.O. Mao, 06/09/54”. Ao se despedirem, Tia Eulália não resistiu aos encantos do jovem mancebo e beijou-lhe demoradamente.

Ela caminhava em direção de casa, olhando a foto, quando foi surpreendida por uma voz estridente:

— Muito bem, hein Eulália? Agora já sei de tudo! — puxando a foto de suas mãos.

Era Néscio Costa, o NC, cunhado dela, casado com sua irmã Ermelinda. Um pervertido, que pensava quase o dia inteiro em sexo e uma parte restante no jogo de Xadrez, no qual não ganhava uma.

— Não é nada disso que tu estais pensando... — respondeu assustada.

— Claro que é. Pois, todo mundo vai ficar sabendo dessa história.

NC saiu correndo, levando a foto. Eulália, assustada, o seguiu tentando reverter a situação.

Ao chegar lá, disse que precisava conversar com ele. Ermelinda não estava em casa, pois tinha ido comprar alfinetes na casa Dias. NC dizia a ela que as coisas não seriam tão simples assim. Para que ninguém ficasse sabendo da história e para que a foto fosse devolvida ela precisaria pagar um preço. Depois de muita insistência, Eulália cedeu e perguntou qual seria o preço. NC, com uma cara de tarado, olhos esbugalhados, disse no seu ouvido: “Eulália, pega na minha genitália...” e soltou uma gargalhada coberta de bronquite. Tia Eulália saiu em disparada, horrorizada, sem saber o que fazer. Varias tentativas de NC se sucederam, sem muito sucesso.

Depois disso, Tia Eulália não mais viu o jovem robusto. Costumava, então, passar suas “permissões” na casa do irmão mais velho, onde aos domingos reuniam-se outros irmãos e cunhados.  O casal Ermelinda e N.C. eram os mais assíduos visitantes.

A casa do irmão primogênito era imensa, com dezenas de cômodos: quartos, salas, corredores, terraços... duas portas de vai-e-vem, colunas de mármore, lustres, bufês e cristaleiras, e até um piano alemão, um verdadeiro cenário de ficção! Tudo parecia possível e permitido naquele lugar quase imaginário. É como se tudo o que se fizesse ali ficasse por conta do faz-de-conta. Da grande sala de jantar descia uma escada que levava ao porão.

Em um desses encontros, durante o almoço, NC que estava sentado ao lado de Tia Eulália, passou-lhe algo por debaixo da mesa. Era um pedaço de cartolina com o desenho de uma piroca avantajada, a cabeça pintada de vermelho, gotejando, tendo embaixo a frase “Maria Eulália, pega na minha genitália”, seguida de duas iniciais N.C. Tia Eulália, guardou assustada, pois, como havia prometido, NC iria revelar tudo naquele almoço. Deu um último suspiro e balançou a cabeça positivamente. Os olhos de NC esbugalharam juntamente com uma pequena e sutil gotinha de baba que escorria pelo canto da boca.

Tio Néscio conseguiu o que queria. Naquela tarde devolveu a foto a Tia Eulália, com uma pequena modificação. Havia raspado com gillete parte do “O” das iniciais da dedicatória, transformando-o num “C”, tamanha a sua obsessão. A partir daí, sempre que Tia Eulália saia em suas “permissões”, ia à casa do irmão mais velho onde, coincidentemente, também estavam o casal NC e Ermelinda.

Os sobrinhos Galerdo e Deraudo adoravam quando tio Néscio vinha lhes visitar, pois ele lhes dava um saco de jujuba para ficarem vigiando enquanto ele e Tia Eulália conversavam no porão. Tia Ermelinda tagarelava com a cunhada na cozinha, há quase um quilômetro de distância dali. NC Prevenia sempre as crianças para que não descessem antes que lhes dessem o sinal verde e que avisassem se seu pai aparecesse. Os dois ficavam ansiosos, a postos, roendo os cotocos de unhas com risos de nervosismo, na inocência dos seus sete e seis anos, respectivamente.

Depois de alguns meses, Tia Eulália, em pecado, já não suportava mais ser chantageada por Tio Néscio, vulgo NC. Eram momentos de muita tristeza. Começou a apresentar sinais de neurose e síndrome maníaco-depressiva. Quase esquizofrênica, começou a colecionar manias. Entre elas, uma obsessiva mania de organização. A ponto de ter no banheiro de seu quarto dois cestos de lixo, um para papel com xixi e outro para fezes e “outros” conforme a etiqueta colada.

Um dia, foi apresentada a um importante comerciante do Bodozal, localizado próximo ao igarapé do Mindú, nas proximidades do que hoje conhecemos como Vieralves. Seu nome era Tota Costa, o “Esquemoso”, apelido recebido pela facilidade de trânsito por entre os corredores do poder. Negociava tudo. Lembra da história do vendedor de geladeira pra esquimó? Era ele.

Tota vendeu “barato, barato” para Tia Eulália um baú de ferro branco, com um “pequeno defeito na fechadura”. Vendeu não, “fez rolo” com um par de óculos velhos e um espécie de ceroula de ferro —  que ela não sabia para que servia —  ambos surrupiados da madre Consolata.

Aquele baú passou a ser a vida de Tia Eulália. Tudo ela colocava ali dentro. Não sabemos bem o que, pois ela o mantia fechado com sete cadeados.

Um dia, tia Eulália estava na casa do irmão mais velho, (sem o Tio Néscio, pois este havia se mudado com tia Ermelinda para o Rio de Janeiro) e resolveu descer até o porão. Chegando lá, encontrou Érython fumando escondido, sendo observado pela irmã Maria Elsia. Justamente naquele dia, Ele, irmão mais velho de Galerdo e Deraudo, não tinha saco de jujuba para dar aos dois que preferiram jogar bola a vigiar a escada. Tia Eulália, já longe do seu juízo perfeito, atormentada, fez um escândalo. Todos desceram ao porão, inclusive o pai de Érython. Foi um sermão só. Nada seria como antes a partir daquele dia.

Maria Elsia, na tentativa de consolar o irmão, prometeu que um dia iria se vingar de Tia Eulália, difamando-a e acabando com a sua reputação. Érython, olhando para o além, abraçado à irmã solidária, fumando um cigarrinho, tascou a profecia: “— um dia vou estar à frente de um grande canal de comunicação e informação. Vou poder me vingar de tamanha crueldade...”, soltando a fumaça do pulmão.

Mas, onde andará N.O.? Quem será N.O.? Que fim levou o baú? Por que a Céu não quer falar? Que fim terá Albiere? 

Perguntas. Nada mais que perguntas que o tempo tratará de responder...