Capítulo V
O “buraco” da perdição
Boboinha
Tia Eulália de hábito e mesmo sem hábito, vivia
reclamando do Convento. Mas era de pura esperteza, pois o que ela queria mesmo
era ir para casa do seu irmão que tinha porão.
A Madre Superiora Consolata dos Anjos,
inconsolata com as estripulias da titia, proibiu suas “permissões”. Então a
tia teve mesmo que se distrair no Convento, e lá bem que ela se divertia... tocava vários instrumentos, tinha uma
banda de rock pauleira, praticava esportes radicais e para não negar a raça,
adorava jogar cartas. Principalmente buraco que aprendeu a jogar (e roubar) com seus sobrinhos Galerdo, Deraudo,
Érython e Abab. E, logo logo passou os ensinamentos para todas as freiras do convento, inclusive a Madre Superiora Irmã
Consolata dos Anjos, que como ela, ficou viciada.
Então, todos os domingos, nas tardes ensolaradas, várias mesas eram espalhadas pelo lindo e
bem tratado gramado do Convento, todas forradas com toalhas longas impecavelmente brancas. O cenário era cinematográfico,
toalhas longas brancas, hábitos longos brancos contrastavam com o gramado
verdinho.... rodeado de árvores
verdinhas...
O vício era sagrado! E a cada dia que passava, mais
adeptos o buraco ganhava.
Até o Sr. Cunhal (que não é alcunha do cunhado Néscio),
que tomava conta do porão do Convento, digo portão, e que ficava só de
longe... espiando... espiando... mas com o tempo, foi se chegando devagarinho, até que conseguiu uma vaguinha.
A Tia Eulália, enxeridinha como ela só, na falta de
uma parceira, convidou o Seu Cunhal
para jogar com ela só uma mãosinha. Pronto... e só não virou parceiro cativo
porque o cara era disputadíssimo pelas demais beatas, inclusive pela M.S. e
principalmente por uma noviça novinha e sapeca, filha de italianos, chamada
Querettina. Não se sabia bem a razão de tal disputa, pois o tal Cunhal
jogava mal pra Cará 1.
Tia Eulália não conseguia mais viver tranqüila, só
pensava no buraco, já nem orava direito, não comia e nem dormia normalmente. Já
nem queria mais “permissão” para o
porão do seu irmão... Passava a semana inteira na expectativa do jogo de buraco
dominical. Antes do vicio se instalar, a expectativa da chegada do domingo era
pela missa das 9 horas, que sempre era muito festiva, bem cantada, sempre longa
e super badalada. Era a única missa do
Convento aberta ao público, então a comunidade inteira comparecia, lotava!
Muitas vezes parecia até desfile de moda, tinha longuete, mini saia, xortinho
meia bunda etc., sem contar com o concurso do gogó, cada um que queria mostrar
mais sua voz, exibindo frustradas atuações como cantor (a), e os tímpanos dos
fiéis infiéis é que sofriam.
Pois é, mas a tal missa ficou relegada, dando lugar
ao buraco que veio tapar o buraco, o vazio, a depressão que as tardes de
domingo sempre trazem para algumas pessoas.
Assim titia ia levando sua vidinha, calma e
tranqüila, até que certo dia acordou com uma coceirinha na xereca... A
principio ficou excitadíssima, pois era gostosa a coceira, mas ao mesmo tempo
incomodava.
A coisa começou a aumentar e eis que, não tão de repente, titia resolveu ligar
para uma sobrinha que, apesar de Assistente Social, era a "médica" (a
irmã do Zeca ainda não tinha terminado nem o Maternal!) da família, só porque
fizera um pedaço de um curso de enfermagem, lá pelos anos cinqüenta. A tal
sobrinha, sutil como um rinoceronte, soltou na bucha: se a senhora não fosse
freira, eu diria que estava com gonô! Ficou louquinha! e perambulava pelos
corredores sombrios do Convento repetindo baixinho: TÔ COM GONÔ... TÔ COM GONÔ...
TÔ COM GONÔ...
Titia com gonô??!!!! Mas como, xente? E fofoca lá e
fofoca cá... mais fofoca lá, mais fofoca cá... Especulações!!!!! Foi no banco
do ônibus?!! Banheiro do convento??!! Na missa?!! Carência de vitaminas? Deficiência auto imune? Vasculhou-se
tudo! investigou-se toda a vida da pobre titia (tadinha...) nos últimos tempo e
nada se descobriu. Mas aquilo ficou martelando e pregando na cabeça de todos.
Titia até desconfiava de algo, principalmente depois que descobriu que as
amigas do buraco estavam se comportando de modo estranho e tomando uns
antibióticos potentes, Benzetacyl 2 era um deles, mas seria um
túmulo, jamais iria deixar transparecer o mínimo de suas dúvidas e
desconfianças.
A vida voltou ao normal, nada se descobriu e a velha
rotina diária continuou, culminando
como sempre, com o tradicional jogo de buraco dominical.
Num desses domingos, a Madre Superiora Consolata dos
Anjos, resolveu fazer um campeonato de buraco para animar as freiras. Seria um
domingo diferente, mais festivo, regado a caipirinha e muita cerveja.
Todos compareceram impecáveis, titia colocou seu
hábito na água sanitária para ficar bem branquinho, outras fizeram escova no
cabelo, apesar de ficar escondido, rolou manicure e pedicure, até batom a
M.S.C. dos A. usou. Estavam todas ouriçadas! O Seu Cunhal apareceu com uma
calça de linho branca, camisa social azul marinho com as mangas arregaçadas,
barba feita e perfume de drogaria. Seu Cunhal estava muito arrumado,
chiquérrimo, porém meio esquisito pois
estava de sandálias havaiana. Todas repararam e comentaram: Caramba, o
cara incrivelmente arrumado com uma bosta de uma sandália de dedo!!!??? Pô, que
desprestígio para nossa festa!! Mas logo logo repararam que o dedão do pé do dito cujo estava enrolado com uma gaze que fazia seu
dedo dobrar de tamanho. Parecia uma bola de pênis, digo de tênis. Todos
crivaram de perguntas o pobre do Cunhinha: - “Jogou futebol em campo minado?
Chutou a canela da sogra? Deu chute em ponta de faca?
- Qual o
quê tchurma, eu tô mermo é com panarício, unheiro do brabo!” Respondeu o
Seu Cunhão.
Tia Eulália gelou, ficou branca como seu alvo e
imaculado hábito e se aproximando do Seu Cunhal cochichou entredentes: Seu puto de uma figa! Espalhou gonô pela metade do convento,
seu safado! Por que não colocou uma camisinha na bosta desse dedão???
É que na hora de jogar buraco com o Seu Cunhal,
rolavam umas sacanagenzinhas por debaixo da longa, alva e imaculada toalha
de mesa...
Como ela(s) não podia(m) pegar na genitália tão
solicitada de afago, fazia(m) uns toques de leve com seu pé por debaixo da
toalha. Até aí tudo bem... Só que o negócio tinha mão dupla, digo, pé duplo, ia
lá e vinha cá. Ele também queria fazer uma fezinha... Então, era só ter o
trabalho de levantar o hábito (que com tanta panarada branca se confundia com a
longa toalha de mesa) e o resto o Seu Cunhal completava. É...na falta de uma
genitália comprida e nem tão elástica, ele ia com seu dedão (macho pra
caramba) procurar a, até então,
inatingível vulva, passando pela úvula do seu palatino inferior... e... shlofe,
shlofe, shlofe... fiiiiuuuuu!... shlofe, shlofe, shlofe... fiiiiuuuuu! shlofe, shlofe, shlofe... fiiiiuuuuu!
..ai..ai....ui...ui...
- Tia Eulália usava calcinhas? Era virgem ? Tinha vertigem?
- Quem contaminou o dedão de seu Cunhal, foi a
noviça sapeca, a tal Querettina?
Perguntas. Nada mais que perguntas que o tempo
tratará, ou não, de responder...
1 Cará, do tupi Ka`ra – masc.sing. Inhame-da-China.
2 Marca de
fantasia de "Benzetalcio", medicamento de cunho (ou Cunha?) religioso
= Benze tal cio!