DE MARIA EULÁLIA A TIA MIQUELINA... OU CÂNDIDA INOCÊNCIA?
José Geraldo Bessa
Antes de abrir o baú ou até mesmo entrar no baú, tia Maria Eulália teve seus momentos de glória quando fez uma viagem ao Rio de Janeiro par rever seus sobrinhos que moram em Niterói, entre eles os irmãos Gery e Eduardo que receberam o apelido de Galerdo e Deraudo dado pela irmã Marelisa e que na infância ficavam “brechando” as visitas que a titia fazia no porão do casarão na rua Frei José dos Inocentes em Manaus.
Curiosamente tia Maria Eulália queria conhecer o apartamento onde morou o Néscio Costa, dizendo que a Ermelinda a pediu para pegar umas coisinhas muito importantes que estavam dentro de um baú de couro cru coberto com uma coxa de retalhos de crochê.
Ela foi informada pelo seu sobrinho predileto Gery que seria muito difícil chegar até lá, pois o apartamento estava ocupado por outra sobrinha de nome Agnes que não abria a porta nem para seus irmãos Rash, Mundinho, Belisa e até para o finado Zé Capitão; muito menos para uma ex-religiosa idosa com 36 tipos de doença.
Mas diante da insistência de Maria Eulália, o seu sobrinho predileto já escaldado e com medo de apanhar outra vez da Agnes por ter perdido uma corrida de cadeira de rodas (pilotada por ele), disputada com seu pai (pilotada por seu irmão Eduardo), tendo como juiz o seu primo Babá. Então Gery resolveu pedir reforço do Letinha para conduzir a ex-religiosa até o apartamento do Néscio Costa no centro de Niterói.
Reunidos no apartamento da rua Lopes Trovão, onde moravam o Letinha juntamente com sua exposa e filhos e que acolheram e hospedaram a mais inusitada das tias, fizeram todo o planejamento da arriscada missão.
Depois de tomarem as providências e montado toda a estratégia para o embate, partiram os três dentro do Chevette preto da Exmélia: Letinha no volante, Gery no banco do carona e tia Eulália no banco detrás.
Era um sábado à tarde, fazia um calor dos caralhos! Um trânsito filho da puta! E pra completar ainda tinha uma porrada de babacas na rua fazendo campanha pro viadinho do Collor, e a bosta do carro não tinha ar condicionado.
Enquanto Letinha tentava desviar de alguns cabos eleitorais perambulando pelo meio da rua, o Gery pedia pra ele atropelar, e tia Eulália não estava entendendo porra nenhuma!
Durante o percurso ocorreu o seguinte triálogo:
Letinha: - Tia, a senhora conhece bem a Agnes?
Eulália: - Claro meu sobrinho! Quando ela nasceu tinha os olhos azulinhos, iguais os da tua mãe, você não lembra?
Gery: - Tia, a senhora sabia que a Agnes é sapatão?
Eulália: - Claro meu sobrinho predileto, ela teve meningite quando criança e ficou com seqüelas.
Letinha: - A senhora sabe o que é sapatão?
Eulália: - Ora! É quem anda de cadeiras de rodas.
Gery e Letinha: -?!?!!!?
Gery: - Tia, mudando um pouco de assunto, como está Manaus?
Eulália: - Ta mais quente do que aqui.
Gery: - E as tias Lizoca, Dedé e Ermelinda?
Eulália: - Não é por estar na frente de vocês, mas os irmãos que eu mais gosto é do teu pai e da Lizoca. A Dedé continua a mesma. A Mana é que anda um pouco esquisita, a última vez que estivemos juntas foi no aeroporto antes de vir pra cá, foi quando ela me deu essas chaves, esse é um dos motivos da minha ida no seu antigo apartamento.
Letinha: - E o tio Néscio?
Eulália: - Ah! Ele é maravilhoso! Muito educado... Ele está me ensinando a jogar xadrez... Só que não consigo aprender... Ele me diz umas palavras bonitas... Certa vez ele pediu pra enfiar a mão no bolso de sua calça dizendo: “Maria Eulália, pega na minha genitália”. O bolso estava sem fundo e percebi que estava sem genitália. A Mana bem que podia costurar as calças e fazer umas ceroulas pra ele, ela costura tão bem!
Letinha: - A senhora sabe o que é genitália?
Eulália: - Num é roupas íntimas?
Gery: - Como estão os tios Turmalino e Padreco?
Eulália: - O Turmalino fuma um cigarro atrás do outro, se não se cuidar, vai acabar morrendo de enfisema pulmonar. O Padreco foi o meu grande inspirador para deixar o hábito. Ele já está no 2º casamento e se duvidar, ele vai pro 4º... 5º... E assim sucessivamente. Só não entendi porque o Padreco ficou preocupado quando soube que eu vou ao apartamento da mana.
Gery: - Agora me tire uma dúvida que carrego há muito tempo. O Mazinho queima a rosca?
Eulália: - Desde criança! Ele também faz bolo... E confeitado! Cada um mais bonito que o outro... Uma vez ele fez um todo colorido e colocou umas bonequinhas vestidas de renda de crochê em cima, o figurino e o feitio era dele, estavam lindíssimas!
Gery e Letinha (em coro): - Unnhh! Tô enteendeendo!
Depois de um tumultuado percurso o trio estava chegando ao seu destino. Letinha estacionou o rabecão em frente ao prédio da rua Coronel Gomes Machado, no centro de Niterói. Abriu a mala do carro e pegou um pacote que continha um Kit “Amansa Leoa” que herdou do Zé Capitão. O grupo fez um pequeno ensaio da estratégia previamente planejada e subiram para o apartamento 205. Chegando lá, tia Maria Eulália enfiou o dedo na campainha. – NÃOOO! Gritaram os patéticos sobrinhos. Deram sorte porque a campainha não estava funcionando.
Só existem três pessoas que conseguem entrar pacificamente no apartamento ocupado pela ferinha: Babá, Basinho e Cida ou na marra utilizando o kit criado pelo Zé Capitão.
Então foi montado o seguinte plano: o Letinha imita a voz do Babá, o Gery a do Basinho e tia Eulália a da Cida.
Toc!..
toc!..toc! ... toc!.. toc!.. toc! Bateu
na porta o Letinha timidamente e se cagando de medo, sem ouvir resposta do
outro lado. O Gery com toda característica que lhe é peculiar cerrou os pulsos
e deu três porradas na porta: - BAM! BAM! BAM! E uma voz gasguita do outro lado
da porta responde: - quem é?
Letinha: - Agnes é o Babá! Abre a porta.
Agnes: -
Diga a senha.
Letinha (sussurrando): - Puta que pariu! Por essa não esperava! Gery vai de Basinho!
Gery: - Oi Agnes, aqui é o Basinho, tudo bem?
Agnes: -
Se for mesmo, diga a senha?
Gery (sussurrando): - Fudeu-se! Vai tia, sua vez!
Eulália: - Oi amor, aqui é Cidão, abre a porta que eu estou cheia de tesão!
Agnes:
- Cidão porra nenhuma! Ela está aqui dentro, sentada no meu colo... Já sei,
é o Rash, Mundinho e a Belisa querendo roubar o baú da tia Mana. Vão-se pra
puta que os pariu antes que eu chame a polícia!
Tia Eulália, coitada, continua sem entender bulhufas!
O Letinha tem uma senha: “COMI DE GRAÇA NO TREM DE BARRETOS A BAURU”, infelizmente não pode ser usada porque está cancelada. A única alternativa que resta é apelar para o kit “Amansa Leoa”.
Os sinos da igreja de São João deram 18 badaladas... Já estava anoitecendo, o corredor do prédio apertado, sem iluminação e sem ventilação.
Colocaram o kit no chão e abriram. O kit continha: 127 chaves usadas de fechadura, um cotoco de vela, uma caixa de fósforos com um palito, uma cruz feita de pau de goiabeira, uma Bíblia faltando algumas páginas, uma chibata feita de bexiga de boi, um punhal de osso, um consolo de viúva feito de pau de miratinga, um frasco de desodorante Avanço contendo um líquido fedorento pra caralho! E outros objetos não identificados.
Tia Eulália pegou o toco de vela e Letinha acendeu com o único palito de fósforo do kit. Gery pegou o molho de chaves e ficou experimentando de uma por uma na fechadura da porta, com muito cuidado pra não fazer barulho. Quando estava tentando a centésima vigésima sexta chave, a porra da vela acabou e tia Eulália subitamente desmaiou. Dentre as 36 doenças, ela sofre de claustrofobia e tem medo de escuro.
Gery pegou a tia no colo desceu correndo a escada do prédio. Letinha abriu a porta do carro e deitaram a desfalecida no banco traseiro. Como manda o manual de “primeiros socorros”, Letinha afrouxou as roupas e Gery fez respiração boca-a-boca.
- Porra Letinha! Se não fosse minha tia eu encarava! (disse Gery ofegante)
- Égua! Comigo não tem essas coisas de parente não! Eu como até os caralhos! (respondeu Letinha).
O atendimento dos paramédicos foi perfeito! Tia Eulália recuperou-se e estava toda assanhadinha! Porem um pouco frustrada pelo fracasso da missão. De volta pra casa, por volta das 19 horas, o trânsito mais tranqüilo, ela foi orientada pelos fracassados sobrinhos que fosse outro dia na casa da Mana com quem tem acesso: Babá ou o Basinho ou tentar a Cidão, quem sabe!
Como de praxe, a Bessarada de Niterói e agregados, passam os fins de semana se divertindo com tudo e com todos: Jogatinas, praias, bares, boates, parques, brincadeiras de salão e outros. Não muito diferente dos finais de semanas anteriores, neste fizeram de tudo um pouco, com uma atenuante: Tia Maria Eulália na parada!
Sábado sete e meia da noite
Depois da frustrada missão, o trio retorna ao apartamento do Letinha, que na época era o QG da Bessarada. Chegando lá estava uma turma esperando, entre eles e elas: Bola, Lúcia, Tainha, Babá, Cônsul, Basinho, Jujú (que Deus a tenha) e uma porrada de crianças.
Exmélia estava na cozinha fritando salgadinhos. Bola e Lúcia saboreando uma Skol em lata. Tainha sentada à mesa jogando paciência. Jujú estava lendo “Cem anos de solidão”. Basinho, Babá e Cônsul estavam papeando.
O pessoal resolveu iniciar a noite jogando baralho. Começaram jogando “copo d’água”, que o perdedor era quem ficasse com a dama de espadas na mão, que era conhecida como “Miquelina”, e como prenda tinha que beber um copo d’água. Jogaram 23 partidas e tia Maria Eulália bebeu 23 copos. O jogo foi encerrado por ordem da Exmélia, pois tia Miquelina, depois de vomitar bastante, queria continuar jogando.
Daí iniciaram uma brincadeira de salão que tia Miquelina aprendeu no convento, denominada “Meu Peru Morreu”. A brincadeira é assim: o pessoal faz uma roda e um integrante A fala: - O meu peru morreu!
E um outro pergunta:
- Como?
- Assim! (responde A fazendo um gesto qualquer, que é imitado por todos). E assim sucessivamente, mudando de interlocutores e gestos.
Tia Miquelina começou a brincadeira fazendo o sinal da cruz. Jujú mudou o gesto, batendo palmas. Letinha fechou a mão esquerda e continuou batendo com a direita espalmada. Bola fez um gesto que estava tocando punheta. Gery fez a mímica de quem está fodendo.
A brincadeira acabou porque o pessoal não tinha mais força pra fazer os gestos de tanto rir da tia Miquelina, que faziam todos muito bem e super compenetrada. E também porque todos tinham que se arrumar e continuar a noitada no “Casarão”, uma casa de shows em Charitas.
Sábado 11 horas da noite.
Chegaram no “Casarão” quase na hora do show do Careca (um cantor amigo da família). A casa estava lotada! A Bessarada se acomodou numa mesa previamente reservada, com lugar especialmente destinado a Tia Miquelina que estava vislumbrante! Trajando uma saia azul marinho acima do joelho e uma blusa branca “tomara que caia” (que pegou emprestado de Nataly, filha da Exmélia).
Bola e Gery pediram da produção do evento que prestasse uma homenagem à “aniversariante da noite”, tia Miquelina.
Ao iniciar o show, todo mundo começou a dançar. Lá pelas tantas careca interrompe o show e fala ao microfone:
- Queremos neste momento prestar nossa homenagem a nossa querida tia Miquelina que está aniversariando hoje!... Parabéns pra você! Nesta data ...(todos da festa cantaram e aplaudiram de pé a Dama da Noite).
Tia Miquelina subiu ao palco super emocionada, recebeu um buquê de rosas, pegou o microfone para dizer algumas palavras:
- Juro que não lembrava que hoje é meu aniversário! Quero agradecer aos meus sobrinhos e a todos presentes! Sinceramente, hoje é o dia mais feliz de toda minha vida! Muito obrigado!
- Canta! Canta! Canta!...(aclamou a galera em coro). E tia Miquelina, sem hesitar, mandou ver:
Oi quebra!
Quebra! Quebra! Quebra! Ai! Ai! Ai! quero ver quebrar!
Quebra o
prato da comida, quebra o pires do mingau
Quebra o
copo da bebida, deixa só a colher de pau
Mete a mão
na cristaleira, quebra tudo que tiver
E no fim da
quebradeira, eu ainda como de colher!
Foi super aplaudida, e a platéia ficou pedindo “mais um”. Tia Miquelina agradeceu a manifestação e disse que essa era a única música que sabia cantar. Pediu a todos para participar da “dança da vassoura” que havia aprendido no convento.
Tia Miquelina já desceu do palco com a vassoura na mão. Toda vez que era pra trocar de par, o animador da festa gritava: - Suruba! E no final de cada música (total de 12), quem ficasse com a vassoura, como prenda, tomava um copo de cerveja animado pelo coro: Vira! Vira! Vira! Virou? Tia miquelina tomou 12 copos.
A festa terminou por volta das 3 horas da manhã, todos foram pra suas devidas casas, já marcados para se encontrarem na praia logo mais.D
Domingo, 10 horas da manhã.
Deixando a ressaca de lado, o sol estava divino! As águas da praia de Camboinhas estavam lindas de verde! Tal qual os olhos do Gery.
Tia Miquelina chegou a praia com a mesma roupa da noite anterior. O Bola não conformado pegou um biquíni reserva de sua filha Camilovisk, conduziu a tia até a um banheiro público e a fez trocar de roupa. Ficou muito bem de fio dental.
A turma fez tudo que tinha direito: jogou bola, frescobol, fez castelo de areia, pegou onda, etc. Tia Miquelina depois de levar três “soca” e deixar cair o biquíni duas vezes, o pessoal resolveu fazer uma “piscina” pra ela, cavou um buraco na areia e encheu d’água. Ela ficou ali até a hora de ir embora, feliz da vida.
Domingo, 5 horas da tarde.
Todo mundo está no campo de São Bento. Alguns fazendo compras, outros vendo exposição de artes e tia Miquelina, Gery, Bola e as crianças no parquinho de brinquedos.
Tia Miquelina andou em todos (carrossel, escorrega, gangorra, gira-gira, etc.), mas o que ela mais gostou foi do cart elétrico que era bem radical. Toda vez que ela entrava na pista, o Gery e o Bola também entravam em outros cart e iam de encontro com o dela, batendo propositadamente. Teve uma hora que ela se mijou, não se sabe se foi de medo ou de felicidade. O Gery sugeriu que tirasse a calcinha pra não pegar resfriado.
Se a Mana tirou as calcinhas dentro da igreja, por que eu não posso tirar no parque? E assim foi feito. O difícil foi dar destino a calcinha fedorenta.
Depois que a calcinha ficou “queimando” de mão em mão, o Bola atirou pro auto e caiu em cima do palhaço Carequinha que estava num palco ao ar livre fazendo um show para a criançada. Carequinha pegou o objeto fedido e perguntou: - Quem foi que perdeu esta calcinha?
- EEEUUU!! (gritou Miquelina). Antes que ela terminasse a monossilábica palavra, não tinha mais nenhum sobrinho por perto!
Este foi o último contato que o Gery teve com tia Miquelina em vida.
Passados alguns tempos tia Lizoca também vai visitar seus filhos e sobrinhos de Niterói e traz uma carta para o Gery que vou ler na íntegra:
Manaus, 23 de maio de 1990.
Querido sobrinho predileto
Gery,
Escrevo essas mal traçadas linhas, dizendo que estou com muitas saudades de vocês. Gostaria muito de morar em Niterói, foi o momento mais feliz de minha vida.
Aqui em
Manaus meus sobrinhos são muito sérios, não me levam pra lugar nenhum, não
bricam de “meu peru morreu”, inclusive o Letinha, aqui é outra pessoa. A única
diversão que tenho é conversar com garrafas d’água, elas me entendem. O Kokai
canta na noite e nunca me levou uma vez sequer para ver seu show. O Mauro e
Sérgio ficam rindo de mim o tempo todo. O Bibi e a Lena parecem que tem o dobro
da minha idade.
Prefiro ser
Miquelina! do que Maria Eulália ou
Ancila da Purificação... ou Irmã C... ou R.E. Acho que estou com crise de
identidade.
Vamos falar
de Niterói! Não entendi por que você sumiu naquela tarde no parque, o
Carequinha me chamou no palco e autografou uma roupa minha, esta relíquia vai
pro baú.
Por falar em baú, eu consegui
entrar na casa da Mana. Não vou contar detalhes porque o Babá e a Agnes me
pediram pra manter em segredo
Fala pro
Armando Pinto, aquele moço que conheci naquela festa maravilhosa no Casarão, me
escrever. Ele me lembra muito o Altair, um rapaz que conheci aqui em Manaus que
me deu uma dentadura de presente.
Vou
encerrar esta missiva, pois as garrafas me esperam,
Um abraço
carinhoso de sua tia predileta,
Miquelina
Essa é a verdadeira tia que conhecemos!
Vivas para tia MIQUELINA!!!!!!!!..... ou Cândida Inocência?