SEMIPRECIOSIDADES

 

 

Heyrton Bessa

 

 

Ninguém vai rir neste capítulo, mesmo porque ele não tem graça e nem final feliz. Evoca apenas reminiscências sobre um dos irmãos de tia Eulália. Lembrei-me dele ao ver sua foto, enfiado numa batina que o fazia parecer mais mirrado do que realmente era, num dos álbuns encontrados no velho baú.

 

O Gery o chamou de Turmalino e acertou em cheio, como acertaria se o chamasse de Topázio, Esmeraldo, Ametisto, Turqueso ou Rubi. Isso porque o homem era realmente uma pedra rara. Embora, talvez por falta de um melhor polimento, não chegasse ao brilho de um diamante, estava bem acima de nós, meros cascalhos de pedra jacaré.

 

Ele e o irmão, filhos caçulas de uma viúva beata e pobre, seguiram um dos caminhos que lhes poderiam garantir um futuro melhor que seus primos bucheiros lá de São Raimundo ou do cunhado caixeiro do Jezine: entraram para o seminário. Ser padre ou escriturário do Banco do Brasil eram as melhores chances de ascensão social para os varões das famílias da baixa classe média dos anos 40. No seminário, mesmo que se não chegassem a se ordenar, pelo menos garantiriam uma educação humanística muito superior a de qualquer colégio laico, o que poderia abrir outras portas.  

 

E foi o que Turmalino fez. Largou a batina após concluir o seminário menor e mais o curso de Filosofia, torceu o nariz para a Teologia, voltou para casa antes dos primeiros votos (o de castidade seria impensável) e conseguiu a regência de uma cadeira de Latim, no velho Ginásio. Foi ensinar latim como poderia ter sido matemática ou biologia, pois ele sabia de tudo. E se não soubesse o suficiente, dava uma lida a respeito e em pouco tempo já seria um especialista no assunto. Pelo menos tanto quanto os tellões e maranhões que pontificavam nessas matérias. Imaginem o que Turmalino faria hoje, com a Internet...

 

Foi lá no Ginásio que o conheci. Mas como, dirão vocês, ele não era teu tio? Era, mas o tio sério e ensimesmado, que entrava e saía calado do casarão da Monsenhor Coutinho, não tinha nada a ver com o professor, líder e guru de um grupo de adolescentes, eu no meio, aos quais, qual um Sócrates tropical, dava mostras e mais mostras de cultura e erudição enquanto atravessava com seu séqüito de pupilos a praça da Polícia, vindo do Café do Pina. A qualquer pergunta que lhe fosse feita por um de nós, ele procedia a um ritual quase litúrgico: procurava a sombra de uma árvore, o mulateiro era uma das preferidas, parava, mirava um ponto qualquer, que podia ser os olhos do interlocutor ou  o infinito, dava uma profunda tragada num cigarro que sempre mantinha aceso e em seguida, em voz calma e pausada, respondia com uma explanação cuja profundidade se aproximava da de uma tese de mestrado. Sempre intercalando silêncios que nos atiçavam mais ainda a curiosidade juvenil. Foram as melhores aulas que assisti em toda a minha vida.

 

Tinha um profundo apego ao raciocínio lógico. Em cima de premissas formalmente sólidas, montava silogismos irrefutáveis, mesmo quando aparentemente absurdos, como o da lancha que dava menos prejuízo no fundo do rio do que navegando. A história é a seguinte: Turmalino comprou uma pequena lancha, com a intenção expressa de enchê-la de garotas e passear pelos arredores nos fins de semana, como ir à Ponta Negra (só acessível por água, na época), por exemplo. Acontece que o barco afundou antes da primeira viagem, quando saía do estaleiro, perto da ilha do Caxangá e lá ficou. Aos amigos que lamentavam o fato e o incentivam a resgatá-lo, Turmalino respondia séria e serenamente que o acidente lhe deu lucro. E provava por a mais b que, se a lancha estivesse navegando, ele teria despesas com combustível, manutenção, etc. E quanto aos passeios, mesmo sem lancha, continuava a ir à Ponta Negra com um montão de garotas, convidado por amigos, sem pagar combustível, marujos e mais etcéteras.

 

Um belo dia Turmalino se casou. Até aí tudo bem, pois mesmo tendo ficado mais bem comportado, pouca coisa nele mudou. Logo depois, deixou de ser professor e foi para o Nordeste, como Auditor Fiscal. Tinha passado num concurso para a Receita e os salários eram bem melhores do que os de professor do estado. Perdemos o contato.

 

Outra característica marcante era a fleuma que o fazia reagir de maneira impassível ante surpresas, alegrias e decepções. Eu mesmo senti na pele essa aparente indiferença. Havia uns quinze anos que não nos víamos. Fui fazer um curso em Brasília e soube que ele estava morando lá. Consegui o seu endereço e, sem avisar antes, fui visitá-lo. Sua esposa me recebeu efusivamente e gritando lá pra dentro: "- Olha quem está aqui!", me conduziu até a sala onde ele estava ajustando um aparelho de som.

 

-  "Chegaste em boa hora", disse ele, voltando-se para o que estava fazendo. "Repara se esse estéreo está bem balanceado!".

 

Foram essas suas primeiras palavras depois de tanto tempo sem nos vermos. Não perguntou como eu estava, sobre meus pais, sobre meus filhos, sobre ninguém e sobre mais nada. Foi como se eu tivesse saído pra comprar cigarros e voltado, como se o nosso convívio nunca tivesse sido interrompido por tanto tempo. Frieza? Não. Ele era assim mesmo. 

 

Foi nesta visita que eu comecei a notar que ele estava perdendo o brilho e virando cascalho como nós. Talvez por ter trocado o contato com a juventude pela convivência com burocratas caretas e em vez de livros e provas de alunos, passado a ler processos de contrabando e sonegação. A Praça da Polícia tinha sido trocada por um gabinete de poucos metros quadrados e as questões cosmológicas e metafísicas perderam o lugar para interpretações de leis e decretos. O seu mundo encolhera.

 

Tornamos a nos desencontrar. Nossos caminhos se afastaram e, mesmo  depois que ele se aposentou e retornou a Manaus, nossos encontros aconteciam apenas eventualmente, em aniversários na família. Mas o professor bom de papo já não existia mais. A sua conversa, um monólogo como sempre, só que agora carente de interesse, era do tipo "...e foi quando o Araújo me levou o processo que o Duarte tinha dado um parecer a pedido do Medeiros, pra ver seu concordava e ...", que sempre terminava com uma risadinha e um olhar pedindo uma risadinha cúmplice de volta, em sinal de concordância.  Eu ficava encabulado porque não conseguia descobrir onde estava a graça, talvez porque não conhecesse o Medeiros, nem o Araújo e muito menos o Duarte. 

 

As únicas coisas que sempre manteve desde os velhos tempos foram as enormes pausas intercaladas nas conversas, os olhos azuis mirando um ponto fixo enquanto falava e a baforada solene no cigarro sempre aceso.

 

Um dia foi obrigado a abandonar o cigarro, com a saúde já comprometida.

 

Mais tarde, as pausas nos monólogos foram aumentando cada vez mais, porque falar já lhe cansava.

 

Por último, os olhos azuis miraram o infinito mas já não viam mais nada.