Tio Dante ou A divina enciclopédia

 

Maria Elisa Souto Bessa

 

Meu pai era delegado do IAPC e por um breve período de tempo tivemos uma certa mordomia em decorrência : carona do velho jeep willys preto, depois da aula no IEA. Costumava ir para a casa de meus tios no casarão da Monsenhor Coutinho esperar o Joacyr, o motorista que me levava em casa. Aqueles quase 3 quartos de hora de papo diários com tio Dante após a aula valiam mais do que todas as disciplinas do ginásio. Diferente de Turmalino, me atraía mais sua sensibilidade que sua intelectualidade. Conversávamos sobre Letras, Filosofia, Psicologia, Humanidades e amenidades. O que me agradava nele era a sua capacidade de escutar, sua disponibilidade em « perder seu tempo » com uma garotinha de 14 anos. Sua biblioteca, que talvez fosse apenas uma estante de livros,  para mim era a Biblioteca Nacional ! Cada dia eu lia alguma coisa indicada por ele e discutíamos a respeito. Eu tinha muita vontade de ser sua filha, não apenas pelos seus livros, mas por aquele jeito carinhoso com que ele tratava meus primos.... Recordo me de um dia em que ele ía viajar. Ele partiu de manhã cedo e como as crianças dormiam, ele foi beijar de um por um em suas camas e os seus olhos encheram de lágrimas. Eu achei muito lindo aquilo pois meu pai estava mais pra turma do Turmalino.  Acho que foi  numa época em que minha mãe teve que viajar com meu pai  e  « espalhou » os filhos : eu fui lotada na casa da tia Dedê que morava ao lado da tia Erlene (ambas merecem um capítulo a parte) que foi a responsável pelo tio Dante ser meu tio.

 

Tio Dante era um tipo bem engraçado físicamente. Além da calvície, tinha umas pernas enormes e um tronco pequeno, com aquela calças debaixo do sovaco. Era professor do ginásio – o que valia mais do que qualquer professor universitário com Doutorado, hoje. Além de ser um grande mestre e meu tio-guru, ele possuía, em sua estante mágica, o « Thesouro da Juventude » (com Th) que para mim era a divina enciclopédia! Aquela capa dura, cinza escura, se não me engano, com letras douradas, era como uma porta secreta que se abria para o mundo. Eu viajava naquelas páginas, (sem modem e sem mouse) apenas usava as pontas dos dedos e a imaginação: subia montanhas, cruzava mares, voava para outras galáxias, penetrava no corpo humano, nas raízes das plantas, no centro da terra, visitava diferentes povos e culturas, atravessava os séculos... sem sair da cadeira de balanço.

 

Anos depois voltei a visitá-lo já doente, mas com menor frequência, porque aquele aparelho  que ele usava na garganta me deixava engasgada. Não consigo lembrar a distância de tempo entre o período em que eu esperava o jeep  e o período em que ele esperava a morte, nem a duração desse dois períodos. Só lembro que o meu afeto e admiração  por ele sempre foi do mesmo tamanho.

 

Em julho de 1969 saí de Manaus pela primeira vez, e foi  na minha ausência que ele se foi, enquanto Erasmo Carlos sentado à beira do caminho via o homem pisar na lua. Caetano já caminhava contra o vento,  cantando e seguindo a canção de Vandré...  Gilberto Gil inventava a rosa vermelha , domingo, no parque (pra não dizer que não falei de flores...).

 

« AI-5 suspende todas as eleições » , « Aposentadorias forçada de professores universitários » , « Decreto-lei regulariza a censura à imprensa » , « Seqüestro do Embaixador dos EUA no Rio de Janeiro »... Assim terminou aquele ano pleno de emoções :  perdas e descobertas, alegrias e revoltas, vida e morte...

 

Fiquei tão triste de não vê-lo mais ao retornar das férias que até tentei várias vezes fazer com que ele  « aparecesse » pra mim, eu queria me despedir : fechava os olhos, pensava forte, rezava, me concentrava... mas decididamente nunca tive a menor inclinação pra  mediunidade.

 

Foi uma experiência fugaz e intensa aquele « fazer hora » quotidiano na casa da Monsenhor Coutinho.  E tio Dante ficou guardado, como uma  peça preciosa, no tesouro da minha juventude.

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