Capítulo I
Heyrton Bessa
José Luiz vinha dirigindo devagar. A chuva fazia o asfalto negro engolir os fachos de seus faróis, ao mesmo tempo que transformava o já embaçado pára-brisa em milhares de prismas, a decompor a luz dos carros que vinham na direção contrária e provocando lapsos de cegueira a cada instante. Em vão esfregava o vidro com a palma da mão, maldizendo os garotos que deram sumiço na flanela que guardara no porta-luvas. E assim ia, a quarenta, cinqüenta por hora, apertando os olhos para descobrir um pedaço do acostamento ou um fragmento de faixa que lhe orientasse o rumo.
Se não fosse por Ivone, já teria parado há muito, encostado num dos muitos bares que passavam devagar pela estrada, até que a chuva cessasse. Quem sabe, tomado até uma cerveja pois, apesar do temporal, o calor não cedia um mísero grau.
- Como tem bares nesta estrada. Um ao lado de outro e todos cheios. Ainda mais numa sexta-feira, como hoje. Engraçado! Tive a impressão que o cara do Santana cinza parado na frente daquele barzinho apontou para mim. Deve ser algum amigo que reconheceu meu carro.
O vai-e-vem do limpador (ou seria o seu vuco-vuco?) e o chiado dos pneus no asfalto molhado têm um efeito meio hipnótico e José Luiz se esforça para que um certo torpor não lhe bloqueie a consciência. Para arejar a cabeça, abriu dois dedos da sua janela, mesmo que se molhasse um pouco.
Foi quando ele quase sai da pista, ofuscado desta vez pelo seu próprio retrovisor. Um lampejo do farol de milha do carro que vinha atrás lhe tirou momentaneamente a visão, mas o susto serviu para que a descarga de adrenalina lhe aliviasse o sono. Ficou mais ligado. Rodou mais uns poucos quilômetros atento às curvas e ao tráfego, cada vez menos intenso. E pensando na Ivone. Se não fosse por ela não teria tomado esta estrada, ainda mais debaixo de um toró assim. O que um homem é capaz de fazer por uma mulher...
- Pode ser coincidência, mas eu sou capaz de jurar que esse carro atrás de mim é o tal Santana que eu vi parado naquela barzinho.
José Luiz tinha a mania de falar sozinho quando dirigia. Pensar alto, melhor dizendo. Levemente incomodado, ligou a seta para a direita e diminuiu mais a velocidade, como se fosse sair para o acostamento. Nesse local não havia bares, nem casas...
- Porra, por que esse cara não me ultrapassa logo! De repente bateu uma certa angústia e então mudou de idéia. Encaixou uma reduzida e pisou fundo no acelerador, sem se importar com a pista molhada.