Capítulo XI
Heyrton Bessa
Dormiu profundamente sim, mas por pouco tempo. Logo despertou e tentou por a cabeça (ou seria ele todo?) em ordem e repassar a sucessão de eventos que assistira e dos quais participara ultimamente. A cabeça (ou seria ele todo?) doía e latejava como se mil tambores tocassem em uníssono em suas têmporas. Um gosto, entre travoso e amargo, lhe secava a boca. Um enorme mal-estar no estômago (ou seria onde deveria estar o estômago?) lhe dava a sensação de que iria vomitar a qualquer momento.
Apesar do desconforto e de não se conformar com o inusitado da situação, fechou os olhos para não ver o seu não-corpo e deixou o pensamento fluir livremente. Pouco a pouco as lembranças foram se avivando.
Lembrava que tinha saído de carro debaixo de um tremendo temporal. Lembrava também que estava lendo um livrinho maluco e que o largara para jogar paciência no computador. Lembrava ainda que tinha conversado com uma falsa loura de voz grossa e com um C.V. tatuado sob o decote. Lembrava até que tinha saído correndo da sala por causa de um fétido e estrepitoso peido do Dragon.
A essas lembranças factíveis se misturavam outras que pareciam alucinações, tais como as das vísceras grudadas no carro, a de uma cabeça degolada de mulher voando alguns metros, a de um cara com um circunflexo na cabeça e sentado num "L" enorme, como numa versão maluca de "Alice no País dos Espelhos" e outras mais loucas ainda.
Só não conseguia era organizar essas lembranças cronologicamente, estabelecer uma sucessão, um encadeamento entre elas e, mais ainda, separar o real da fantasia... real? Eu disse real? Pode haver algum traço de realismo nas reminiscências de uma cabeça solta, isolada, se deslocando por aí na base de espirros? Só isso já é puro non-sense!
Abriu os olhos na esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo e procurou mais uma vez ver seu corpo. Nada, apenas o travesseiro. Procurou o cara que fumava cachimbo e ele continuava lá, com sua roupa branca e não mais com o cachimbo e sim com um estranho colar no pescoço, ao lado de uma árvore, ou melhor, de um arbusto pouco maior que ele. E não só ele que estava de branco. Tudo parecia branco, até o céu! Talvez fosse a névoa. E o perfume de mato, por que tinha se transformado em cheiro de éter e álcool?
Foi só pensar em cheiro e de repente aconteceu algo terrível: uma coceira no nariz! Todo mundo sabe o que é uma coceira no nariz e como ela se transforma pouco a pouco numa compulsão irresistível. E se não for possível coçá-lo, a sensação é como a de uma excitação sexual que vai crescendo, crescendo, até chegar a um estado de paroxismo. Aí a pressão sobe, a respiração fica curta, os olhos lacrimejam e todo o seu ser vibra com se percorrido por uma descarga elétrica!
Mesmo já tendo resolvido alguns problemas, alguns até com certa criatividade, como se deslocar usando a Lei da Ação e Reação, não tinha como resolver uma prosaica coceira na venta. Coçar como? Poderia ser raspando a cara em algo áspero, mas para isso teria que sair do travesseiro. Tentou na base do espirro, moveu-se um pouco mas o cara de branco se levantou e recolocou sua cabeça (ou seria ele todo?) no lugar em que estava. Tentou pedir então para que ele coçasse, mas este parecia não ouvi-lo e voltou a se sentar perto da árvore... árvore? Olhando bem, aquilo não parecia uma árvore comum! Agora percebeu que era uma planta esquisita, com um caule reto e muito fino e uns galhinhos horizontais. E num dos galhinhos havia um frasco pendurado de cabeça para baixo, de onde saía uma mangueirinha.
Foi quando, seguindo a mangueirnha, viu que a outra ponta estava ligada ao dorso de uma mão que estava abandonada a pouca distância de onde se encontrava. O que para qualquer um seria motivo de espanto, para ele era perfeitamente natural uma mão solta, ainda que presa a uma mangueirinha, uma vez que ele mesmo era uma cabeça solta. Foi aí que reconheceu que era uma de suas próprias mãos! Mas como ela foi parar ali onde ele estava? Teria o seguido? E por que estaria presa à tal mangueirinha, para não fugir?
Como a coceira aumentava cada vez mais, fixou os olhos naquilo que poderia ser a solução de seu problema e desejou poder manobrar, com a força do pensamento, aquela mão inerte. Era meio chegado à parapsicologia, acreditava em telepatia e telecinésia, até tinha lido uns livros do Padre Quevedo, quem sabe! Concentrou-se e viu deslumbrado que a mão se aproximava lentamente até tocar seu nariz e coçá-lo, num movimento vigoroso e coordenado, como se obedecesse à sua vontade.
Foi nesse momento que o homem de branco levantou-se e gritou:
- Ele voltou a si!
E se viu cercado de homens e mulheres de branco.