Capítulo XII
Maria do Céu Bessa Freire
Tentou abrir os olhos para ver se percebia a dimensão do que estava acontecendo e sem que pudesse controlar o turbilhão de lembranças da infância, adolescência, idade adulta, morte, pós-morte..., cantarolou em pensamento, a música com que sua mãe Dolores costumava lhe fazer dormir: "Dolores Sierra, vive em Barcelona, na beira do cais...". Mas por que estaria lembrando da mãe defunta, no momento em que queria voltar à realidade? Seria ela um daqueles seres de branco, de rostos esfumaçados? Estaria ele verdadeiramente e finalmente morto? Precisava se certificar disso. Tentou abrir mais os olhos e suas pupilas dilataram-se tanto que quase saíram de órbita.
E novamente a angústia subiu-lhe à cabeça (ou seria ele todo?) quando lembrou-se das outras partes do seu corpo, das mãos que poderiam estar coladas aos braços, que por sua vez haviam-se colados a outra parte que ele imaginara ser seu tronco. E as pernas? Será que elas também teriam tido a idéia do espirro e teriam o seguido?
Oh céus, que torpor ! Não conseguia coordenar os pensamentos! E a Dolores Sierra teria escapado à perseguição do homem do Santana cinza? Por onde andará Dragon CV? Afinal, a chuva teria finalmente passado depois de tantos capítulos?
Voltou à realidade (seria aquilo real?) e percebeu novamente seres brancos, tão brancos, como que saídos do molho de água mineral com sabão OMO e água sanitária Q-BOA.
Agora a mão gorda, já o irritava coçando meladamente o nariz, sem parar, quase o sufocando. Tentou gritar por socorro, mas ouviu nitidamente um peido estrondoso, tão próximo, que o fez pensar que sua bunda havia chegado primeiro, ao lugar em que deveria estar o umbigo. Por alguns segundo inalou aquele cheiro fétido e imaginou-se uma criatura deformada, com cara de bunda, corcunda de barriga, mão na testa... Ah, a porcaria da mão gorda continuava a melar-lhe não só o nariz, mas a cara inteira e agora tinha uma proporção gigantesca impedindo-o de ver o que se passava ao redor. Apesar do esforço, só conseguia ver vultos brancos como se tivesse pingado colírio para dilatar as pupilas (ou será que elas haviam mesmo saído de órbita?).
Foi então que ouviu vozes de mulheres e homens:
- Ele voltou a si, mas parece meio tonto. Tirem isso de cima delei.
De súbito sentiu um misto de alívio quando a mão gorda e melada deixou seu nariz e todo o rosto em paz . Mas a frase que ouvira, de repente causara-lhe pânico. Será que tinham lhe levado a mão?
Tentou lembrar-se do que acontecera do capítulo XI para trás, mas suas lembranças estavam sem nexo: Ivone, CV, Santana cinza, pedaços de vísceras, chuva, muita chuva. Não conseguia juntar o quebra cabeça. Nem seu nome sabia mais... José Luis, João, Zé Head, Big.
Juntou suas forças, rezou à Santa Etelvina e conseguiu visualizar o que acontecia. Melhor que não o tivesse feito. Seu rosto contorceu-se de horror quando procurou as mãos e percebeu que em seu lugar, não sabia como, estava a língua de Dragon colada à uma bunda, que não era a do cachorro.
Tomado de pânico, conseguiu gritar:
- TIREM-ME DESTA HISTÓRIA LOUCA!