Capítulo XIII
Sebastião Mendonça
Seu grito parecia ter ficado apenas em sua mente. Não ouviu qualquer reação. Fez esforço para não voltar a pensar na situação presente, aconteça o que acontecer. Preferiu lembrar do momento em que rolava na chuva. Suas forças energéticas estavam todas concentradas na cabeça, única parte sobrevivente. Daí sua barba crescer muito rápido. No giro dos espirros, sua cabeça saltitava e a descida de ladeira se tornava perigosa, quase incontrolável, não fosse a barba enfiar-se no barro e deter a queda por alguns instantes, até que a chuva atingisse seu nariz. Novo espiro e a cabeça voltava a saltos inesperados.
Mas era divertido.. Os pingos da chuva ora caiam em seu couro cabeludo. Ora no rosto. Esses pingos, logo percebeu, tinham sonoridades diferentes. Um fazia On, outro Off. Foi nesses repetidos On, Off, On, Off ...que ele se lembrou do grande amigo de infância, o Onofre, inseparável em todas as brincadeiras e travessuras. Essas lembranças do tempo de criança lhe traziam mais satisfação do que pensar na mãe defunta. Lembrou desde quando trocavam chupetas, dos momentos em que deitavam no chão para ver a tia sem calça. As crianças riem à toda, dizia ela inocentemente oferecendo mais um pedaço de bolo.
Tantas peripécias que dão histórias para um romance. As primeiras experiências sexuais que só traziam remorsos pelos sermões da avó beata que muito os alertava do pecado, e pelos ligeiras erupções causadas por tranzas com buracos nas bananeiras ou nas beiras do rios, nas periquitas feitas na tabatinga. Eram crianças e não viam maldade nisso.
É bem verdade que certa feita deixou o Onofre espantado com seu estado de lerdeira, em plena quermesse da Igreja Matriz da sua pequena cidade onde passara belos momentos de sua infância. Já estava crescidinho, por volta de seus 9 a 10 anos. O arraial tinha todo o movimento habitual das festas da padroeira. Moças e meninas passeando de mãos dadas ou de braço com outras meninas. Jovens e crianças circulando a praça sempre trocando olhares fortuitos em flertes sutis.
Barraquinhas com guloseimas e brincadeiras variadas. Bolos e frangos leiloados com renda para a igreja. Estranho que aproximando-se das 19 horas os sinos badalavam para anunciar a missa que em parte interrompia o movimento lá fora. Um terço dos fiéis portando terços lotavam a igreja, favoreciam os que ficavam lá fora, justificando sua ausência nessa lotação.
Vou falar um pouco por mim. O sino badalava e eu estava estático. Foi minha primeira visão. De repente percebi que os sinos estavam com os badalos para cima. Esses badalos iam crescendo, crescendo, tomavam forma de padres que eram expelidos com tamanha velocidade, criando luminosidade de asteróide. Iluminavam toda praça e todo meu rosto. Os padres ira ficando coloridos e cada vez mais psicodélicos. Alteravam sua forma e iam se juntando num único ponto, no canto da praça, próximo de mim à minha esquerda. Cheguei a pensar que o sacristão devia estar também muito entusiasmado e não parava de badalar padres voadores que se enfeixavam e desciam disformes, ora em panos abertos de cores vivas, ora em hastes, ora em cabos de ferro. Sentia um grande calafrio em meus lábios.
Os padres-foguetes iam se arrumando como numa junção de um quebra cabeça menos difícil do que aquele do capítulo XI para trás. Logo percebi que assim se formava um carrossel, que girava mostrando suas cadeiras vazias e apenas um cavalo que parecia de verdade. O rabo do cavalo era formado pelo padre que no dia anterior me confessara e que me dera uma grande penitência porque lhe disse não me arrepender do gozo na periquita de tabatinga.
Nas voltas seguintes, procurei encontrar novas figuras naquele cavalo. Percebi que aquele rabo lindo, embora formado pelo padre, confundia-se com o da Ivone que graciosamente se escondia abaixando-se do outro lado do cavalo, sempre que passava por mim. Ela descuidou-se e eu a vi. Seu rosto estava lindo, seu sorriso me deixara mais abobado. Eu estava em êxtase quando o Onofre atrapalhou minha visão, sacudindo-me e chamando de leso.
Tentei explicar que eu não era leso. Não o convenci. Ele estava só com o palito do picolé que comprara para mim e que insistia em por na minha boca. Estou cansado. Vou tentar desvendar este mistério que agora continua me intrigando. Quem sabe não aparece um texto psicografado pela minha mãe para elucidar tamanha confusão que deixa minha cabeça em forma de panela de pressão. Quente e fumegante.
Ou será alguém fumando nesta sala?