Capítulo XIV

Preta

Por que será que associei o que estou sentindo, ao fumo? Lembranças da época em que eu curtia um baseado e ficava delirante? Ou será que essa nuvem que tolda meu cérebro faz parte da fumaça de algum cigarro?

On, 0ff, on, off… off, on, off, on, ofeão, orfeão... Sim!!! É isso mesmo!!! Sua irmã mais velha sempre se dera ares de importância porque estudava canto orfeônico no curso de magistério. Canto, música, .... de repente tudo se tornou claro. Não existem mais nuvens. Agora se lembrava perfeitamente de tudo.

Lembrou que praticava um de seus hobbies preferidos, navegar na Internet, quando se deparou com um apelo irresistível. Era sobre uma tal banda ou sobre uma Banda TAL. O apelo ou convite, parecia coisa de pai deslumbrado. Mas mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, não estava conseguindo resistir.

Procurou saber tudo sobre a tal da TAL, buscou informações na Internet, conversou com lvone que lhe deu a maior força (pois tinha segundas intenções), pensou bem na distância, no custo e nas conseqüências, e resolveu que valia a pena investir. Parecia até que estava hipnotizado pelo entusiasmo daquele a quem batizou de "Pai da Banda".

As lembranças sucediam-se numa velocidade incrível. Naquele final de semana havia chamado um táxi para leva-lo ao aeroporto. Bem que havia pensado em dirigir o velho Del Rey, mas desistiu devido à forte chuva que desabou naquele dia.

Quando o santana cinza chegou cantando os pneus, dirigido pelo chofer mal encarado, tatuado com um VC no peito parcialmente coberto pela camisa desabotoada, vacilou. Será que estava fazendo a coisa certa? Mas o apelo era forte demais.

O caminho para o aeroporto estava horrível. Trovoadas, relâmpagos e pista deslizante, era de arrepiar qualquer um. Ainda bem que o santana possuía insufilm em todos os vidros. Conseguiu relaxar e cochilou. O mais incrível é que até sonhar ele conseguiu. É bem verdade que este sonho mais parecia um pesadelo.

Não lembrou bem a viagem de avião. Provavelmente dormira durante as horas de vôo. Culpa da Internet que não lhe deixava tempo para dormir.

O que jamais poderia esquecer: a visão do escort vermelho com Ivone na direção, a sua espera. Graças a Deus não esquecera o embrulho no banco de trás do santana. Ivone iria adorar a surpresa.

Até que enfim havia chegado Agora podia curtir a tal da Banda TAL.

Sabia que próximo, bem próximo à banda, diria até mesmo ligado à banda, havia um grupo de pessoas que adoravam um "papo cabeça". Talvez por isso mesmo aquela ressaca só trazia a mente, a parte superior de seu corpo. Também, quem mandou assistir ao show na mesma mesa que essas pessoas? O papo que rolava era meio sem pé nem cabeça, ou por outra, era só cabeça, sem pé.

A mesa era composta por um grupo meio esdrúxulo. Havia um baixinho tarado pelo seu cachorro peidão e que tirava as broncas falando em mulheraças sensuais. Uma das mulheres que compunham a mesa, comparava o show da TAL com o show do Paul Mc Cartney, e delirava tanto, que imaginava o frenesi do pessoal que dançava sob luzes estroboscópicas, como uma dança macabra onde braços, pernas e cabeças separavam-se, agindo independentes uns dos outros. Outra, não contente com o que se estava falando, pôs-se a imaginar uma dança das letras das músicas que estavam sendo tocadas. Enquanto o L subia, o M baixava e assim por diante. Todos ali se consideravam letrados. Alguns filosofavam, outros devaneavam , ainda tinha aquele que começou a discorrer sobre o efeito que determinadas luzes faziam no cérebro das pessoas e ficavam vendo padres coloridos, psicodélicos e voadores como uma forma de se vingar das penitências compridas e nem sempre cumpridas.

Aquele show estava parecido com uma sessão de terapia em grupo. Cada um colocava para fora o "melhor" de si. Não se preocupavam com coerência. Um deles, mais velho e, talvez por isso, mais sensato (?), tentava dar sentido aos diálogos dos demais, que pouco estavam se importando. Não faziam questão nem mesmo de serem ouvidos. O que importava era deixar fazer efeito, o vinho que biritavam e que havia sido oferecido pelo Pai da Banda, para justificar a consumação mínima, vinho este que alguém comparou com sangue, associando com vísceras e pedaços de gente.

O show fora realmente um sucesso! Valera a pena o investimento. Fora SENSACIONAL!

Lembrava que depois do show alguém sugeriu que fossem ao terreiro da Mãe Joana, já que, mesmo sem combinarem antecipadamente, todos trajavam roupas brancas.

Ivone havia alertado para que parasse de beber, mas teimoso que era, resolveu tomar o uísque do Pai Tomás que certamente estava misturado com outras bebidas. Não deu outra, a última coisa que lembrava era a vontade imensa de sair dançando no meio daquela gente de branco. Ainda passou pela sua cabeça, os conselhos da velha Cláudia, sua mãe "Meu filho livre-se sempre de todas as bebidas. A única coisa que o homem deve tomar é água que purifica..." o resto não conseguiu mais lembrar, pois começou com uma dor de cabeça tão grande, que tomou conta de todo o seu corpo. A dor era tanta que o resto do corpo ficou esquecido. Era como se ele todo fosse somente cabeça.

Estava relembrando tudo isso quando....


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