Capítulo XVII

Tchakommel

Jean-Louis estava completamente perdido. Não lembrava de mais nada do que lhe havia acontecido até aquele momento. Foi então que decidiu mudar radicalmente de vida. Aproveitando do estado amnésico em que se encontrava, decidiu zerar a sua história: "Meu nome é Owl, Paul Owl. Nasci em Ballykissangel, na Inglaterra em 1961. Meus pais me levaram com 6 meses de idade para a Africa do Sul, onde aprendi a lidar com as diferenças apesar do Apartheid. Em agosto de 2000, navegando no ciberespaço, imigrei definitivamente para o Brasil, onde mais tarde, passei a me chamar Paulo Coruja".

"Minha chegada neste país foi meio tumultuada. Desembarquei no porto de uma tal de Cidade dos Bessa e fui direto pro boteco tomar uma caipirinha (famosa caipirinha de que se falava na Inglaterra desde os tempos de Sherlock Holmes). Lá encontrei um tal de Djeury que queria me comer".

Djeuy era o irmão mais novo do barman e estava lá enchendo a cara com Germano e Lucíola quando chegou o gringo perdidão querendo um apoio de alguém do lugar. Não falava uma palavra de português.

- Hi! – cumprimentou timidamente – My name is Owl. Paul Owl. I’m from South Africa. Alguém falou: quem é esse gringo viado?

- Ah, de vez em quando aparecem uns estrangeiros por aqui, mas se sentem desenturmados e se mandam, disse o barman.

- What’s your name? , arriscou o gringo.

- My name is Djeury, seu filho da puta, tu é gay?

- I love your country, respondeu Owl.

- You love meu caralho , insistiu Djeury.

- Esse cara não é sulafricano, o inglês dele tá muito certinho, comentaram. Germano e Lucíola. tentaram ser gentis, ensaiando um diálogo em inglês coloquial, mas logo vinha Djeury e avacalhava de novo. E conforme profetizou o barman, o aventureiro acabou se mandando meio sem jeito.

Dias depois, para a surpresa geral, Owl foi parar em Icaraí, doidão atrás do Djeury. (Acho até que ele andou dividindo o coquetel de drogas com o Dragon). Ninguém entendeu como ele conseguiu chegar até o Edifício Lugano. Estava tão obsedado pelo baixinho de olhos verdes que resolveu ir à luta.. Djeury não teve outra saída senão encarar o branquelo.

- Porra, cara, qual é a tua? Are you gay?

- No, disse ele, I’m not gay, I mean... not only...

- Are you bi? Tri? Drag Queen? Adiantou Djeury.

- Na verdade - respondeu Paul em inglês - I am pansexual....

- Quoi?!!? Qu’est-ce que ça veut dire!? - delirou Djeury espantado que até francês falou.

- P.O. ficou ainda mais ensandecido com o biquinho que o D. fez. – Na verdade, sou tudo isso, traço tudo, mon amour...

- Co-como assim? Gaguejou D.

- Outro dia, por exemplo, vi uma árvore lindíssima e senti o maior tesão por ela...

- Então, pensou o Djeury, a essas alturas o Dragon já foi dragado por esse Drag drogado.

- Não sou racista, continuou, não excluo ninguém, toda espécie é bem vinda: humanos, quadrúpedes, batráquios, répteis, frutíferas, cactáceas e ornamentais. Mas tenho uma atração especial por bonsais que nem você, baby... é o meu lado pedófilo, declarou Paulinho.

- (Porra, então aqui em casa ele vai fazer a festa... Ousou pensar o Djeury, num misto de preocupação, simpatia, curiosidade e senso de humor). Tenho que armar um plano pra despistar esse tarado. Vou ficar cozinhando o galo aqui pra ver se ele desiste. (Na verdade, o coruja preferia mesmo era pinto. E cru). Acendendo um cigarro atrás do outro (antes o cigarro), o baixinho, quem diria, evitou palavras obscenas pra não assanhar mais o gringo: vamos falar abobrinha.? (Se deu mal em mencionar tal legume). E agora como vou descascar esse pepino? pensou alto..

- Oh, não se preócupe, Djeury, com casca is better!

- Beter?! Beterraba? Perguntou D.

- Oh, yes, better rabo, better rabo, very nice, Jerry, you are too much!

Foi aí que o baixinho redondo avermelhou de vez: porra, o que é que eu faço pra sair desta salada? Suspirou consigo mesmo. Ficou ali pensando com seus botões (será que posso pensar em botões? Não irá ele associar à braguilha? Ah, não, se respondeu aliviado, ele é da geração velco).

De repente Djeury teve un insight: pegou o telefone e ligou pra Belisa Martins.

E do outro lado da linha:

- Ele é preto? cê sabe que não gostodepretoné tôforaamenosqueelesejacheiodagrana essemalandrotáteenrolandoprimo vaiverqueeleédomorrodoCavalão aprendeuinglêsporcorrespondênciapraenrolarosbestas eledevesertraficantededrogas euheinRosanãoquerohistóriacomapolícianão...

- Porra, Maria Belisa, o menino é branco de doer na vista! E mal fala o português! O problema é que ele grudou em mim! Achei que você, uma mulher inteligente, esperta, experiente, macaca velha, gata escaldada, me desse uma idéia pra me livrar do garoto...

- Ha, há, ha, cê acha mêmo, é?...


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