Capítulo II
J. D. Cyrino Jr.
A chuva, contínua, não parava de enfeitar o pára-brisa com prismas estroboscópicos que se coloriam aos focos de luz, aumentando o perigo cada vez que o pé de José Luiz apertava o acelerador do velho Ford Del Rey. O ponteiro do velocímetro já se aproximava dos 90 quilômetros, o que era muito para aquelas condições.
Com um olho na faixa brilhosa que se punha e desaparecia incessantemente à sua frente, e outro no retrovisor, José Luiz tentava manter sob controle a angustia que o invadia. Entretanto, o vuco-vuco do limpador de pára-brisa causava-lhe uma crescente perturbação, levando-o a imaginar que estava sendo perseguido pelo homem do Santana cinza. Era como se a cada vuco o perseguidor se aproximasse mais.
Quase em pânico, José Luiz não parava de pensar em Ivone.
- E se algo de ruim me acontecer, como ficará Ivone?
Era sua maior preocupação. Já se imaginava morto, assassinado pelo homem do Santana cinza, por isso seus pensamentos já eram de saudades de Ivone. Lembrava do dia em que beijou pela primeira vez sua amada. Foi atrás de um caminhão que ficava estacionado todas as noites na porta da casa do vizinho de Ivone. A carroceria alta fazia uma sombra suficiente para o casal se ocultar dos olhos de quem passava pela rua. Ali ficavam namorando até a mãe de Ivone acender a luz fluorescente da porta, num sinal de que chegava a hora de se recolher. Compreensiva, a mãe de Ivone piscava duas vezes a luz antes de acendê-la definitivamente.
Mas os pensamentos românticos de José Luiz eram turbados pelo barulho medonho do vuco-vuco do limpador que lhe fazia lembrar do homem do Santana cinza.
Aqueles momentos pareciam uma eternidade. O trecho era ermo. Os bares e as casas de antes, davam lugar a uma vegetação baixa e rarefeita. A escuridão era imensa. Não havia acostamento. E a chuva não parava. E o vuco-vuco anunciava que o homem do Santana cinza se aproximava.
José Luiz, que já rezava, tinha esperança de encontrar um bar ou uma casa, ou qualquer um sinal de habitação. Pensava em parar e sair gritando, pedindo socorro. Mas nada. A cada curva, mais chuva, mais prismas coloridos no pára-brisa, mais medo e mais vuco-vuco avisando que a hora fatal se aproximava.
De súbito, José Luiz imaginou haver chegado sua hora. Os faróis do Santana cinza saíram da mira dos seus olhos. Fugiram do retrovisor interno e invadiram o externo, num sinal de que estava sendo ultrapassado pelo seu carrasco.
Tudo aconteceu muito rápido. O Santana cinza se aproximava velozmente como uma perseguição de cinema. O barulho do vuco-vuco desapareceu diante do barulhento escapamento do algoz, pois não precisava anunciar mais nada. O pavor de José Luiz não lhe permitia olhar para o lado. Poderia ser pior. Se não bastasse senti-la, seria ver a morte, olhar para ela.
Até que a pista lisa e brilhosa, sumiu à frente dos quatro faróis por causa de uma curva fechada para a direita. José Luiz, sem saber ao certo o que fazer, pisou violentamente no freio e gritando o nome de Ivone, tentou olhar para o lado esquerdo. Antes que o fizesse, porém, ouviu um enorme barulho, como se fosse uma explosão.