Capítulo III

Maria Elisa Souto Bessa

José Luiz, apavorado, preferiu seguir em frente, sem querer olhar pra trás. Conseguiu contornar a curva e após alguns quilômetros chegou numa estrada de barro que, em consequência da chuva, estava quase intrafegável. E agora, como escapar, como fugir? João Luiz só queria sumir, ficar o mais distante possível daquilo que poderia ter sido o fim do seu pesadelo. Ele queria esquecer aqueles momentos terríveis.

A agonia do medo cedeu lugar à angústia da dúvida. O que teria acontecido com aquele carro que o havia seguido? E aquela explosão teria sido no mesmo carro? E quem seria aquele motorista do Santana que minutos atrás o observava e parecia seguí-lo? Teria sido realmente uma perseguição? Ou uma simples coincidência?

A chuva desabava, cada vez mais forte. O barulho ensurdecedor dos pingos sobre o capô da velha del Rey o deixava atônito, em estado de ebriedade, como se tivesse tomado várias doses de uísque. E na obscuridão da noite, impossível de se imaginar o que existia ao redor. Não se ouvia nem se via nada, apenas chuva e trevas. O único sinal de luz seria o suposto fogo da possível explosão que João Luiz não ousara conferir. Sem se voltar sequer um momento para o que poderia ter ficado atrás, seguia obstinadamente seu caminho, a ponto de não perceber que o carro não avançara sequer cinquenta metros. Coberto de lama até a alma, prosseguia patinando na sua fuga ilusória, tomado por uma espécie de obsessão alucinante. Parecia não mais acelerar, mas pedalar, pedalar, pedalar...até o limite da exaustão...

Estranhas figuras, acompanhadas de vozes incompreensíveis, surgiram no meio daquela escuridão eterna. Silhuetas de aparência humana se projetavam nos ares, feito bonecos de papelão, sob fundo avermelhado. Pernas e cabeças jorravam do horizonte como fogos de artifício e misturando-se às gotas de chuva, despencavam vertiginosamente e desapareciam entre o céu e a terra. Esse espetáculo apocalíptico se repetia seguidamente: pernas, cabeças, braços, pingos vermelhos, subiam e desciam inúmeras vezes, como se fosse o ensaio geral da dança do fim do mundo. De repente, como que mudando de canal, outras imagens insólitas passaram a desfilar diante de seus olhos fechados: quatro soldados romanos assistiam a um show de Paul McCartney. Como se quisesse transmitir uma mensagem criptológica, a câmera focalizava alternada e repetidamente ora os quatro romanos ora o inglês...ora 4 romanos ora l inglês...IV romanos, ONE inglês... "IVONE!!"... IVOONNEE!!...ONE...ONE... gritou Luiz desesperado, como se tivesse despertando de um terrível pesadelo.


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