Capítulo V
Lúcia Maria Bessa Respeita
Zé Luiz estava embasbacado com tanta beleza... por alguns instantes chegou a esquecer que Ivone existia. Olhava para aquela mulherona toda empinada na sua frente e só pensava: "Cláudia, Cláudia... és muita azeitona para minha empada... " Mesmo gostando muito de Ivone, pensou em tirar um sarrinho desta louraça gostosa. Perdido em seus pensamentos e ofuscado com tanta exuberância, Zé Luiz deixou cair a chave do seu carro no lamaçal escuro, meio por descuido, meio de propósito pois seu medo era tanto que não ousaria retornar ao seu carro (pelo menos naquela noite) depois que viu a meleca de vísceras humana encima do capot. Zé não se preocupou nem um pouco com o fato de ter perdido a chave, apenas comentou com um falso ar de preocupação: "E agora, não sei como achar a chave do meu carro nesta escuridão"... Cláudia Vulcão, aproximou-se e falou: "Benzinho, podes vir comigo no meu carro"... Era tudo o que o Zé queria... A estas alturas nem lembrou que Ivone existia...
Zé acompanhou Cláudia Verrugão um tanto preocupado, pois ao mesmo tempo em que estava curtindo aquele visual de mulher e se deixando levar pela sua infinita beleza, estava preocupado com uma série de fatos que o intrigavam: de onde surgiu esta deusa? Da moita? E as vozes que havia escutado quando o carro parou? Por que só Cláudia aparecera? Entre voltar sozinho para a meleca de vísceras de seu carro e a companhia de Cláudia, obviamente que Zé optou pela mulher, mesmo correndo alguns riscos, que para ele certamente valeria a pena.
Entraram no Santana cinza, onde tudo estava aparentemente normal, porém algo deixou Zé intrigado: um enorme embrulho no banco traseiro do carro, coberto com um plástico preto.
Zé Luiz pensou em perguntar do que se tratava, mas não queria que ela suspeitasse que ele suspeitava de alguma coisa. O que ele menos queria no mundo era perder aquela gata... então... melhor ignorar o tal pacotão e curtir...
Cláudia ao volante, pé embaixo, 80 km....100 km .... 120 km... que arrepio... Zé queria falar algo, mas seu desejo de continuar aqueles momentos era tanto, que melhor era ficar quieto.
Cláudia caladona, fumando um cigarro de piteira, nem sequer um olharzinho para o pobre Zé ao seu lado, seu olhar fixo na estrada e suas mãos ao volante pareciam nervosas, até tremiam um pouco... e pareciam meio másculas... "não... não... não era possível !"pensou Zé.
Zé tentou reagir e criando um pouco de coragem perguntou timidamente: "querida, para onde vamos?"... Cláudia sequer desviou seu olhar da estrada e como se surda fosse... não respondeu.
Zé pensou: "Acho que entrei numa fria"... "Será que este C.V. tatuado no peito é mesmo Cláudia Varandão?"Será que não significa Comando Vermelho? ou Carlinhos Viadão (será ela um travestí?) Caralhão do Valonguinho? Cúl Virgem? Chereca Voadora, Cupim Voraz? Chochota Virtual? Ou ainda Chulé de Vigário?" perdido em seus pensamentos e cada vez mais apavorado, Zé tremia, tremia muito... rezou... agora pensou em Ivone... e de quanto era feliz a.C. (antes de Cláudia).
Que ironia, algumas horas atrás Zé tinha desejado que a noite fosse eterna, mas agora rezava para que o dia amanhecesse... pelo menos conseguiria identificar algum trecho da estrada, quem sabe até algum local conhecido, ou mesmo em caso de emergência saberia como voltar, teria referência qualquer, mas naquele breu... Zé estava sendo levado não sabia para onde e nem por onde estava sendo conduzido...
Eis que de repente... Cláudinha Viagrão deu uma freada brusca, tão brusca, que quase o Zé perdia os córnios ... e gritou para ele com voz meio grossa: "fique onde está, não se mexa!" Saiu do carro apressadamente e deixou o pobre do Zé acuado, tremendo igual vara verde, sentado quietinho, tentando em vão enxergar algo na escuridão, tendo como companhia apenas aquele enorme embrulho no banco traseiro do carro.
De repente... sentiu um pressentimento horrível.... um calafrio percorreu seu corpo, sentiu um frio na sua espinha como se uma espada de gelo estivesse atravessando a sua medula óssea. Tentou gritar mas sua voz ficou embargada, então....