Capítulo VI
Heyrton Bessa
José Luiz fechou o livro que estava lendo e levantou-se da poltrona balançando a cabeça em sinal de desaprovação. Que romance idiota! Extremamente confuso, com sérios lapsos de continuidade, como se batesse uma amnésia no autor a cada início de capítulo. Inesperadamente, personagens mudam de nome no meio da história, uma morena fica loura de repente, cadáveres surgem do nada e deixam suas vísceras grudadas no teto do carro, o dia amanhece e anoitece durante uma ação que se subentende durar poucos minutos, um cara sonha que está tendo um pesadelo, fora outras maluquices. Mas não podia esconder que tinha ficado impressionado com os nomes dos personagens. Era como se o autor tivesse se inspirado no seu ambiente. Só faltava aparecer o Dragon, um pequinês velho que passava vinte e três das vinte e quatro horas do dia dormitando no sofá da sala.
Foi até a janela e olhou enviezado para o velho Del Rey estacionado diante do portão. Sentiu um leve arrepio, mas creditou-o ao vento úmido que anunciava chuva.
- Que cara sofredor, esse meu "xará", mal se livra de uma fria cai em outra, disfarçou.
E passou a rememorar como esse livro veio parar na sua casa. "Chuva Vermelha" simplesmente aparecera um dia na mesinha da sala, no meio de revistas e jornais. Era uma brochura ordinária, parecia artesanal, inclusive não se lembrava de ter visto o nome da editora. Começou a lê-lo sem lá muito interesse mas, ao continuar a leitura, foi ficando curioso por causa das coincidências encontradas nesses primeiros capítulos. A principal delas era o nome José Luiz.
Como sua mulher havia saído e ele estava sozinho em casa, resolveu ligar o computador e jogar uma paciência. Para ele, micro só servia mesmo para jogar paciência. Ela, entretanto, passava horas e horas plugada na internet, freqüentando chats e batendo papo pelos ircs da vida. Tinha um montão de amigos sem rosto, de conhecidos sem voz e de colegas que surgiam e desapareciam a um clique de mouse. Parecia desinteressada nas pessoas de carne e osso, inclusive nele. Adotara o nick name "Ivone" e assim era conhecida nas listas. Por que esse nome? Dizia ela que era em homenagem a Yvonne Gosoir Naderièrre, um obscuro travesti francês empalado nos anos 80 por skinheads neofascistas em defesa da moral e bons costumes. E fazia sentido porque antes de se casar com José Luiz havia morado alguns anos na Europa, mais exatamente em Toulouse, no sudoeste da França.
Fosse ou não esse o motivo, pelo menos servia para preservar a sua identidade. Dezenas de mensagens chegavam todos os dias, vindos de lugares os mais exóticos. Todos dirigidos para Ivone e nenhum para Cláudia, seu nome verdadeiro. Fluente em inglês e francês, ela os respondia um a um e assim, entre bits e mais bits, ia levando sua vida que para ela nada tinha de monótona.
Ele nunca tinha ligado muito para esses misteriosas amizades de sua mulher. Que riscos ofereceriam uns maníacos inofensivos que viviam em outras cidades e até países, a não ser levar a conta do telefone lá para as alturas? Ridículo! Sabia até os nomes de alguns, como Mrs.JF, Zé K., D'Jeuri, HB, Tchacomel, Le Dilou, etc., porque Cláudia falava neles como se fizessem parte do seu círculo social.
De repente bateu uma irresistível tentação. Ele, que não era disso, largou a paciência que não queria dar certo e começou a esmiuçar os e-mails recebidos por sua mulher. Muitos em inglês, outros em francês e alguns poucos em português. Mas todos tinham a mesma característica, um montão de besteiras. Já estava para parar com essa pesquisa boba quando encontrou uma mensagem escrita em bom português, que lhe fez gelar o sangue nas veias:
"Ivone, me encontre dia 13, à tardinha, naquele mesmo ramal da estrada. Vou levar o C.V. comigo. Vai ser animado e não esqueça de ler o texto em anexo. Da amiga M.Santana"
Foi como se o céu tivesse desabado sobre sua cabeça! Em todos os sentidos, porque lá fora havia se desencadeado um tempestade daquelas...
- Filha da puta! Cafetina! Vai ser animado, né? Que diabo é isso, suruba? Sua cabeça estava a mil.
Ele nunca ouvira Cláudia falar nessa M. Santana, embora o sobrenome não lhe fosse estranho. C.V. também lhe soava como algo vagamente conhecido. Então, esse negócio seria concreto, de verdade e ele, babaca, pensando que essa história de internet não passava de uma mania inocente. Pelo jeito, já deve vir rolando algo há tempos, porque "naquele mesmo ramal" já deixa implícito que o caso é antigo...
- Êpa!... hoje é dia 13... já são quase seis da tarde e Cláudia ainda não voltou!
Instintivamente passou a mão pela testa, como se procurasse uma incipiente calcificação mais saliente. Já tinha ouvido falar sobre os "cornos virtuais", mas o caso tinha passado dos limites e pareceia muito real! Teve ganas de sair no pique, pegar a estrada e dar um flagrante. Mas que estrada e que ramal seriam esses? Há centenas de estradas, ramais e varadouros nesta cidade! E ainda mais com essa chuva.
- Espera aí! Agora me lembrei que aquele livreto menciona algum coisa sobre C.V.! Caramba, embaralhou tudo! Por que que teria que ser obrigatoriamente um homem? Por que não um menininho, um cachorro ou mesmo um objeto, qualquer coisa, ora...
Mais calmo, resolveu abrir o anexo em busca de pistas mais consistentes e a medida que ia lendo percebia, hipnotizado, que o texto se encaixava perfeitamente na trama do livro (passou-lhe pela cabeça que C.V. poderia ser até as iniciais de "Chuva Vermelha"), mas não como uma seqüência e sim como se fosse uma espécie de introdução. Como se fosse um capítulo zero, capítulo esse que começava com um parágrafo bem curto:
"Como um autômato, José Luiz desligou micro e, com as mãos crispadas, avançou em direção ao sofá onde Dragon cochilava. "