Capítulo VII

J. D. Cyrino Jr.

Assustado com tantas coincidências José Luiz não parava de pensar. Deitado no desbotado sofá de listas negras da sala de estar, punha-se a tentar entender aquela loucura. Meu Deus, dizia para si mesmo, estou enlouquecendo. Parece que esse livro conta a minha história. Mas como isso é possível? Será mesmo que a arte imita a vida como dizem? Mas se isso fosse verdade esse romance maluco deveria copiar os acontecimentos e não antecipá-los, continuava pensando José Luiz, desta vez tentando construir um silogismo que lhe oferecesse uma explicação racional. Foi quando, então, concluiu seu rigoroso raciocínio: ora, se a arte imita a vida e a vida de que trata esse livro é a minha, então essa "CHUVA VERMELHA" deve obedecer a minha vontade; logo eu posso interferir nessa história e dar a ela o desdobramento que eu quiser. É isso mesmo. Vou sair a procura de Cláudia que pode estar me traindo com o tal C.V.

No entanto, antes que levantasse, José Luiz foi invadido por um pensamento que pregou-o de vez no sofá: como procurar Cláudia se não tenho a menor idéia para onde ela foi? Meus Deus, voltei a estaca zero! Não pode ser, tem de haver uma saída...

Os pensamentos de José Luiz, que fluíam como raios em tempestade, foram interrompidos por um ruidoso trovão vindo da ponta do sofá, donde Dragon disparou impudentemente um poderoso peido.

JESUS! NOSSA SENHORA AUXILIADORA! MEU SÃO JOÃO!, gritou José Luiz, acordando o dorminhoco cachorro que saiu em disparada, deslizando sobre a cerâmica colorida da sala, indo parar debaixo da cristaleira de jacarandá.

É CLARO, É CLARO!! Gritava José Luiz, indo em direção a cristaleira. Obrigado Dragon, obrigado meu fiel cão, seu peido foi a grande heureca, resfolegava o eufórico José Luiz, sem perceber que inalava os fortes gases que invadiam a sala.

Enquanto o flatulento cão se encolhia assustado, José Luiz, quase deitado no chão, falava para debaixo da cristaleira: não é a arte que imita a vida Dragon, mas a vida que imita a arte, dizia aliviado.

Isso explicava tudo: Cláudia delirantemente estava trazendo para a vida real as fantasias de "CHUVA VERMELHA", que certamente houvera lido. Não era de hoje que José Luiz desconfiava do estado mental da mulher, afinal ninguém em pleno gozo das faculdades mentais ficaria mais de dez horas seguidas ligado na internet, calado, sem comer e sem beber absolutamente nada.

Foi então que José Luiz resolveu voltar a leitura de "CHUVA VERMELHA", pois assim não precisaria sair aleatoriamente em busca de Cláudia. Lendo o capítulo que tratava do encontro do dia 13, saberia qual o próximo passo de Ivone, a personagem que Cláudia imitava.

Deitado no sofá, José Luiz concentrava-se na leitura buscando a passagem na qual Cláudia havia se inspirado para marcar o encontro com a tal M. Santana.

Era o capítulo 31 - Ivone saíra ao encontro da amiga M. Santana, no dia 13, ao final da tarde. Chovia muito. Ivone dirigia atentamente o seu Escort Vermelho, mas sempre dividindo sua atenção com o pensamento no C.V. que deveria estar no local do encontro, como prometera M. Santana. A viagem parecia não acabar mais, tanto era a ansiedade de Ivone para encontrar-se com C.V.

Após quarenta minutos de viagem, Ivone deixou a estrada de asfalto e dobrou à direita, pegando um estreito ramal de piçarra. A chuva não parava e os respingos d’água misturavam-se aos salpicos de piçarra, fazendo a lama ocupar quase todo o pára-brisa. Isso reduzia bastante a visibilidade que já não era boa em razão do lusco-fusco que se aproximava.

Mais vinte minutos e lá estava o Santana cinza, no acostamento improvisado sob uma frondosa árvore. O lugar era ermo. Nenhuma casa, nenhum bar, nenhum sinal de vida.

Ivone, ansiosa, parou seu carro atrás do Santana e dirigindo-se à amiga que se encontrava em pé, escorada na porta do motorista, falou apressadamente: onde está o C.V., você trouxe ? Calma Ivone, disse a mulher. Claro que trouxe. Está aí na mala. Veja você mesma, amiga. Sem demora, Ivone abriu a mala do Santana cinza. E, VAPUT! Foi fulminante. Ele pulou violentamente em seu pescoço e de um só golpe decapitou-a . Ivone sequer gritou. Certamente não sentiu dor pois a violência foi tamanha que sua cabeça voou a uns dez metros distante do carro.

Como se nada houvesse acontecido, a misteriosa mulher entrou no carro de Ivone e deixando-a morta, foi embora. Antes de partir, no entanto, pegou um enorme embrulho branco que trazia no banco traseiro do seu carro e colocou na mão direita do cadáver de Ivone.

Neste instante, José Luiz, com os olhos esbugalhados, saltou do sofá e correu em direção ŕ porta, pisoteando seu cão flatulento que acabara de sair debaixo da cristaleira.


Retorna ao início ou vai para o capítulo seguinte