Capítulo VIII
Maria Elisa Souto Bessa
J. L. estava tão embrulhado nessa história que pensou por um momento que ele não passava de um pacote nas mãos de Cláudia que imitava Ivone que imitava Cláudia... Um mero embrulho branco que já fora preto no Capítulo 5 e que só servia para simular suicídio nas mãos de cadáveres assassinados.
Quando ia chegando à porta, JL tropeçou e quase caiu da página, não tivesse sua manga de camisa engatado num ponto de interrogação, a sete letras da margem direita, da linha 23. Recuperado do deslize, escalou algumas frases acima, atravessando parágrafos, desviando das vírgulas, ultrapassando pontos seguidos e algumas barreiras de travessões. Adentrou tão profundamente naquela floresta de signos que perdeu o fio condutor do discurso. Já não sabia mais em que capítulo se encontrava, de que história se tratava. Queria sair dessa narrativa interminável e não conseguia. Quanto mais tentava se desvencilhar daquela trama mais se envolvia nesse emaranhado de palavras. Sentia-se prisioneiro de seu próprio enredo que já não lhe interessava, mas do qual não podia escapar. Já não sabia mais se estava lendo a vida ou se vivendo o livro. Ainda sentia aquele odor que ele já não conseguia mais distinguir se era dos gazes provocados por seu fiel amigo canino ou se vinha dele mesmo, ou seja, daquele pacote furta-cor que há três capítulos já vem bolando no banco traseiro do Santana. Mal havia parado para descansar sobre um confortável L maiúsculo que lhe servira provisoriamente de poltrona, quando de repente um acento circunflexo do capítulo três escorrega e cai sobre J. Luís, o que compromete a estrutura do texto e contesta a solidez da ortografia.
Atarantado, J.Lûis sacode fortemente a cabeça, se apalpa e se belisca pra conferir se ele realmente existe ou se não passa de personagem virtual de um folhetim de família. "- Eu levava uma vida tranqüila de aposentado - pensava ele - curtindo meus netos e meus hobbies até o momento em que esses Bessa malucos invadem meu pacato quotidiano e me envolvem numa série de intrigas que nem eles mesmos sabem explicar. Primeiro me fazem sair de madrugada, debaixo do maior toró (eu que já não gosto de dirigir à noite...). Me deixam atolado até o amanhecer, numa estrada suspeita. Me arranjam uma mulher pirada que ora é Ivone ora é Cláudia que ora é travesti. E de quebra me fazem adotar um cachorro peidão, eu que não levo o menor jeito com animais domésticos. Em certos momentos cheguei a imaginar que pudesse decidir meu próprio destino, mas logo entrava um autor diferente e desviava o rumo da minha vida (ou da minha história?)". Perplexo com a terrível constatação de que a realidade não existe, J.Lûis com muito esforço, consegue passar para a página seguinte que estava em branco. Pensou que talvez estivesse aí a sua chance de colocar um ponto final nessa história.